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blogue do siman

escritor • crítico • diretor de teatro • editor

ione

Julho 28, 2015

a alexandre pedro, o cara

 

          entre em mim

faça de meu ser profundo

tua morada incessante

          tremule freneticamente em meu ser

     mergulhe em poços de esperança feliz

     e sorrisos másculos, viris

mais que ponte e rio no mundo

mais que flecha e arco em instante:

     fim

          desilusão real, não a vou fazer

 

poços de esperança feliz

preenchidos por sabores mil

agridoce de pura mucosa

estranheza que a muitos se goza

     casa de amor varonil

fenda, mais que fenda, pura rocha

dos desejos que quis

do querer-se que desgosta

do querer-se mais que um tris

 

                                                                                paradeiro, término lindo

                                                                                coração brejeiro e findo

                                                                                desgraça de gozo militar

                                                                                de doçura e afago lunar

                                                                                de desejo de moça casada

                                                                                à encrustas de putas coloridas

                                                                                moças da vida

                                                                                     moças sem vida

 

e caso, meu amor, algum dia queiras morrer

mergulhe em meu poço de esperança

prenda tua respiração

não subas à superfície

e morra com dignidade e tolice:

afoga-te em meu coração

através da minha mucosa

muito mais que estranha ventosa:

rosa roxa, pedra-chão

afoga-te em prazer e morra

caso temeres, corra

e não volte nunca não

Durmo tarde todos os dias

Julho 28, 2015

A Isac dos Anjos, o Gentil
Que são as pequenas coisas que ocupam grande espaço em nossa vida senão fragmentos?
 
   Durmo tarde todos os dias.
   — De que são feitas as madrugadas insones em que você se instala e conforta? — Todos me perguntam.
  — Mas não precisam ser feitas, nem preenchidas; a (des)graça da insônia é não ter nada pra fazer, senão ser. — Respondo a todos.
    — No dia você não é?
  — No dia eu sou o que querem que eu seja. Você sabe bem como funciona a sociedade em que vivemos... — Respondo a todos.
   — E por que finge ser alguém que não é? — Todos me perguntam.
   — Não finjo, ajo. — Respondo a todos.
   — E por que age assim? — Todos me perguntam.
   — !!! — Respondo a todos.
  Parece até que a minha exclamação sem fala, sem pensamento, sem nada — vazia, apenas — se torna uma interrogação inquietante nas cabeças pequenas dos grandes interlocutores.
   — ??? — Todos pensam.
   Mal sabem eles que a minha exclamação não é irônica... é tão vazia quanto minhas madrugadas insones!

Crônica do dia do escritor: o único lado

Julho 25, 2015

escritor5.jpg

Quando não escrevo, morro.

Quando escrevo, também.

— Gabriel García Márquez

 

   Hoje reencontrei um antigo amigo meu. Cumprimentamo-nos, jogamos conversa fora e ele me disse que andou lendo uns livros meus e que duvidava que eu era capaz de fazer aquilo tudo. Romances, tragédias, policiais, mistérios, suspenses... “afinal, de onde vem tanta genialidade?”, indagou meu amigo. Sem saber o que responder, fiquei petrificado por algum tempo. Me veio, então, a vontade de retratar àquele homem o lado sofrido de ser escritor — afinal, é o único lado.

   “Ser escritor não é nada do que dizem os psicólogos”, disse eu, “não é uma válvula de escape, não refresca a alma coisa alguma — a não ser que se tenha um freezer imaginário. É árdua a dor do sofrimento dos personagens, viver e sentir como eles, sê-los. É ruim morrer de amores todos os dias e ressuscitar por precisar escrever mais. É ruim beber café doce e senti-lo amargo, descendo a garganta, comer doce-de-leite e aguçar o lado picante da língua. Nada entra — a não ser tristeza, nada sai — se não for escrito.”

   Depois desse papo doido, assustado, meu amigo respondeu: “escritores são felizes, pois ficam ricos sem fazer nada”. Respondi à alto nível: “para escrever, um escritor dá sua alma, sua vida. É uma troca, aparentemente, feita com o Demônio: ou entrega sua alma ou seu coração: de qualquer modo, no fim das contas, se entregar sua alma, seu coração vai junto; se entregar seu coração, sua alma também irá. Ser escritor é sinal de entrega: ‘te dou minha alma se me deres dor, tristeza, solidão’”.

   Ele me olhou assustado, pensando que eu estava precisando me internar urgentemente em um manicômio, afastou-se de mim dizendo: “ser escritor é coisa de gênio. Ser gênio é coisa de escritor”.

   Até hoje não entendi direito o que ele quis dizer. Não sei se foi irônico, mas, de qualquer modo, o que vale é a intenção. Voltei para casa para escrever mais um bocado. Me afoguei em canecas de café, entre um e outro parágrafo ou verso. Cada um interpreta o “ser escritor” que quiser, mas só sabe de verdade que/quem é um escritor, quem “vive escritor”.

 

25 de julho, dia do escritor.

 

Publicado na revista Genia! em 25 de julho de 2014

O fanque é do povo; a MPB, dos filhos dos veteranos

Julho 24, 2015

 
   O que tem me assolado por estes dias é o fato de a MPB contemporânea girar em torno dos filhos, netos ou sobrinhos dos veteranos. Em contraposição a esse fato, o fanque, o rep, o hip-hop e outros estilos musicais mais próximos da sociedade atual, provenientes da rua e das favelas, vêm abrindo novas portas para a renovação da música. O mais admirável nas “vozes das ruas” é que estão conquistando seu espaço sem depender de ninguém, diferentemente dos filhos dos grandes veteranos da música popular brasileira cujo nome, somente, basta.
   Compreendo que foi difícil para os membros da MPB conquistar seu espaço no cenário musical brasileiro, mas compreendo, também, que as novas gerações da música nacional estão tendo seu trabalho reconhecido. Independentemente de gostar ou não dessas novas vozes que agora surgem — e das letras de suas músicas — devemos assumir que é mais que merecido, a qualquer (repito: qualquer) artista que tenha batalhado para fazer aquilo que ama, os aplausos do público.
   O ponto abordado aqui não é o princípio do fanque, rep ou hip-hop, mas sim o papel desempenhado pelos seus representantes. Caetano Veloso disse: “A bossa nova é foda! João Gilberto é foda, Tom Jobim é foda, eu sou foda”, agora, parodiando o grande ídolo de todas as gerações existidas, existentes e futuras, afirmo: “As vozes das ruas são fodas! Fanque é foda, rep é foda, hip-hop é foda.” A realidade de um povo, independente se maquiada ou inventada, será sempre a figura do naturalismo. Naturalismo esse, visceralmente sincero. Portanto, “a arte imita a vida”. Os movimentos artísticos de rua merecem, sem dúvida alguma, seu lugar no papel da cultura brasileira.
   A arte das ruas é a mais sincera representação da realidade de um povo, mas, nem sempre, é vista por este como espelho, e sim como matéria degradante da sociedade. Se o fanque retrata atos obscenos, espalhafatosos, indecorosos, é porque isso existe em nosso meio, seja cultural ou não; o povo não vive da cultura, mas a cultura vive do povo, e é necessário, para o bom andamento da vida social, o reconhecimento de que até mesmo os pontos negativos da arte não degradam a sociedade; na verdade, é a sociedade que influi na arte. Isto é, digamos, uma resposta quase imediata, se não repentina.
   A todos cabe, não somente respeitar, mas, reconhecer qualquer forma de expressão artística como parte da cultura de seu povo. As ruas são e sempre serão aplaudidas por alguns e, infelizmente, apedrejadas por outros, mesmo que esses outros pensem ou pratiquem o que tanto criticam. O mundo gira, os tempos mudam e a cultura, por bem ou por mal, se renova; este é o ciclo de uma sociedade. Enquanto alguns lutam por um espaço, outros espreguiçam-se no que é apenas utopia para os que ainda não têm, sequer, um terço deste. É a lei da sobrevivência na selva da cultura nacional.
   O que mais importa é que, ouvindo Bossa Nova ou fanque carioca, o povo brasileiro continua lindo, o povo brasileiro continua belo!
 
NOTA: Não seria necessário dizer, mas, por menos que pareça ou que eu faça parecer, “toda regra tem exceção”.
 
Vinícius Siman
Ipatinga, 16 de junho de 2015

Te vi

Julho 19, 2015

A Rubem Leite, que amo tanto

 

   Era noite. Eu estava lendo Aquela canção ao som de Un vestido y un amor, por Caetano Veloso. As reminiscências faziam-se presentes. Anotações nas beiradas do livro não poderiam ser mais diretas em sugerir-me seu nome. Insistiam. Os garranchos... uma só linha, sem emendas, cortando os tês; linhas paralelas à profundidade das notas: vultos de memória, inspirações, rabiscos avulsos. Sua voz insistia:
   — Vou-me já.
   — ...antes que o diarreia! — Completou a mente pela força do hábito.

***

   Saíamos do Tuffik Cozinha Árabe; estávamos nos despedindo da Vera. Saíamos da Escola Canuta Rosa; nos despedíamos da Adriana. Na Câmara dos Vereadores fizemos uma zona — todos de lá são muito burros! —; nos despedíamos da Maura. Estávamos em sua casa, sentados na cama, olhando a biblioteca e conversando. Avistei Aquela canção. Achei interessante. Você me emprestou.
   — Vou-me já. — Você insistia.
   — ...antes que o diarreia!
   E isso tornou-se um mantra... mantra que, como diria Vitorio Díaz, “fez-se mais que cotidiano — simplismo do dia-a-dia —, fez-se parte vital do corpo.”

***

   Fechei o livro, acendi um cigarro e algo restou em mim, além do hálito de poesia e da imitação mais engraçada de viado que vi em toda a vida. Levantei-me da banqueta. Dancei pela casa cantando para o mundo ouvir: “te vi, te vi, te vi, yo no buscaba nadie y te vi...”

   Algo restou em mim(?).
   As partes vitais do corpo já decomposto pelos vermes(?).

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