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blogue do siman

escritor • crítico • diretor de teatro • editor

Lascivo mel

Setembro 30, 2015

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Não tira-me da boca o lascivo mel

Que fere-me tanto a alma

E mesmo em tempos de calma

Faz-me de inferno o céu.

 

Não tira-me da boca o lascivo mel

Da flor que brota formosa,

Em finas pétalas cor-de-rosa,

Pondo-me, em seu lugar, o fel.

 

Não tira-me da boca o lascivo mel

De gozo e beleza em resplandecente véu

Da flor que brota doce e formosa;

 

Faz da presença que tanto se goza

Desejo ausente e tenente e quartel,

E mesmo em estrada tenebrosa, não tira-me da boca o lascivo mel.

a face que (não) tenho

Setembro 30, 2015

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a tristeza bate à minha porta

e não sei com que cara vou atender.

 

com cara feliz?

     olhei no armário das caras,

     essa está em falta.

 

com cara raivosa?

     olhei no armário,

     essa está em falta.

 

com cara de nojo devo atender a tristeza?

     olhei no armário

     e essa, também, está em falta.

 

a única que me resta usar

é a cara de nada, de ninguém,

     mas essa já está em minha face

                              (essa já é

                              minha

                              face).

 

e atendo a tristeza com a face que (não) tenho.

 

               tomamos chá juntos.

               falamos sobre os acontecimentos,

                                                       as catástrofes,

                                                                                      — situações que a tristeza,

                                                                                      por obséquio, marca presença —.

               ela recitou um verso meu,

               e eu sorri, triste.

 

que cara agora tenho eu por ter visto em meus versos tamanha dor(!)?

Soneto ao amor — que me ataca novamente

Setembro 28, 2015

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Meus pés estão sujos.

Tão sujos quanto minh’alma porca.

As feridas que me doem por sobrepujo

São latentes do coração que batem à porta.

 

Amo, e por isso, talvez, sofro.

Mas se há homens que sofrem pelo vazio,

Como pode não haver amor sem sofrimento e mofo

Se o mesmo choro que ouço é a lágrima que pio?

 

Meus pés estão sujos

E do meu coração não cessa o estrujo.

Que fazer para limpar os pés?

 

E para o coração, que fazer ao invés

De falar o amor que sinto?

“Dizer não!”. Mas não minto.

árvores

Setembro 21, 2015

 

     árvores

     meus pés pisam árvores

e as folhas entram na fresta de meus dedos

 

     árvores

     minha boca beija árvores

e as folhas são meu beijo

 

     árvores

     minha pele são troncos de árvores

e minha libido, raiz e praguejo

 

     árvores

    (´)

     ar

        vo(r)e(s)

 

     árvores

     meus braços são galhos de árvores

e neles os passarinhos passarinham sem dono

 

     árvores

     meu peito bate árvores

e exala ar puro, e meu coração sente outono

papel de jornal; tela de televisão; alto-falante de rádio

Setembro 20, 2015

 

obrigado

     impressa brasileira

     por ter me

obrigado

     a rir de programas tolos

     a acreditar em notícias falsas

     a comprar o que não é bom

     a ser o que não podia ou devia

     por fazer-me acreditar em ti

     todos os dias

obrigado

     mídia vadia

     por fazer de meus dias sofridos

     sofridos dias

          (assim, ao avesso)

     sem preço sem fantasia

obrigado

     (sou)

     muito obrigado

     (por ter)

     me obrigado

     te agradeço

     (até pelo que) não mereço

          (ser)

obrigado

lata de lixo

Setembro 17, 2015

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minha poesia é barata
     pirata
     de lata
     dilata
     m-se
     os olhos
     de quem vi
     ve
 
minha poesia é de lata
     barata
     pirata
     dilata
     da
     ao ser
     à coisa
     inexata
 
minha poesia é de lata
     não tenho ouros
     não trago cobres
     nada de pratas
     e em sujo prato
     e talheres de boteco
     sirvo
     em tom pouco esperto
     este poema barato
 
minha poesia é barata
     é rato
     percevejo
     perce
     vejo
     me parece
     que beijo
     a palavra
     sua prece
     se não beijo
     me (a)
     parece

Crítica literária: "Assassinatos na Academia Brasileira de Letras", de Jô Soares

Setembro 14, 2015

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   Com a genialidade que deve-se esperar obrigatoriamente de ninguém mais, ninguém menos que Jô Soares, Assassinatos na Academia Brasileira de Letras é a prova de que um autor pode ser cômico, misterioso e surpreendente em um só livro, sem contar a ironia, que é mais que acréscimo, é lei.

   Assassinatos na Academia Brasileira de Letras traz — à base de um enredo estudado cujo domínio do tempo em que se passa é visível — a época em que a Academia ia de bem a melhor, criando novos personagens para esse tempo, mas tudo dentro de um realismo impressionante; daí percebe-se que, na literatura de Jô, entre a ficção e a realidade há uma linha tênue, traçada com delicadeza e maestria pelo autor.

   Um suspense concomitante encarrega-se de prender-nos até o fim do livro e permanece para o fim da vida. No final, descobrimos quem é o assassino, mas uma pulga permanece atrás da orelha eternamente. A inquietude que a obra de Jô Soares e, principalmente, Assassinatos na Academia Brasileira de Letras nos faz sentir é surpreendente, inclusive no ponto de vista literário, pois proezas autênticas como esta são visíveis e perceptíveis em poucas obras de seletos autores.

   Jô Soares tem de bom humorista e apresentador o que tem de genialidade na ficção e no suspense retratados neste romance.

   Assassinatos na Academia Brasileira de Letras é uma trama que atrai e prende o leitor e o deixa sem possibilidade de fuga. Estupendo!

rimas da contemporaneidade

Setembro 10, 2015

inspirado em "rimas da moda", de leminski

 

geração x          geração y            geração z

 

pode                  bronha                 no live 

fode                   maconha             pen drive

copo co'(m)ág0a (tenho sede)

Setembro 10, 2015

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Deixe em paz meu coração

Que ele é um pote até aqui de mágoa

E qualquer desatenção, faça não

Pode ser a gota d'água

— Chico Buarque, "Gota d'água"

 

tenho sede

     dê-me um copo d'água

                             co'água

                             an'água

                       semm'ág0a

 

tenho sede

     por favor, dê-me um copo d'água

                                        sem trégua

                                           não traga

                                             na treva

                                           o'cu'ltada

 

tenho sede

     então, por favor, dê-me um copo d'água

                                                      sem'água

                                                          in'água

                                                   comm'ág0a

 

tenho sede

     não repetirei, então, por favor, dê-me um copo d'água

                                                                         com trégua

                                                                           sim, traga

                                                                                a treva

                                                                               travada

 

                                                             trenho sede

                                                                        quero água

 

     dê-me, por fim, um copo d'mág0a

                                         sem mágoa

                                                 por favor

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