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blogue do siman

escritor • crítico • diretor de teatro • editor

amarelinha

Março 28, 2016

 

crianças pulam amarelinha. feriado. mais tarde, em todos os telejornais, passarão notícias dos acidentes nas estradas. domingo de páscoa. crianças pulam amarelinha sobre o asfalto cinza e atiram cacos de vidro sobre os números demarcados no chão; no meio da estrada. e pulam. e cortam seus pés. e são atropeladas. mas, por que amarelinha, se o asfalto é cinzento (quase negro)? domingo de páscoa — feriado, e crianças pulam amarelinha

biografia

Março 25, 2016

 

tu te conheces

só não te lembra do que és

 

                    sabes todos os fios de cabelo que tens

                    e reclamas quando um cai

                    sabes teu cheiro

                    como ninguém nunca sentiu

                    e sabes também tuas manias

                    teus defeitos

                    e tuas poucas qualidades

 

          tu te conheces como ninguém

          apenas diz que não te conheces por inteiro

          pois não refletes sobre ti

                    (pensas na queda da bolsa de valores

                    analisas a política nacional

                    imaginas situações de amores

                    que jamais acontecerão)

 

                                                            tu te conheces

                                                            independente se a terra gira

                                                            ou o que compõe os astros

                                                                      tu te conheces

                                                                      independente de ti

 

e sabes o que queres

e o que não queres pra si

e sonhas

e entristece-te

quando não há porquê gozar

 

                                                            uma coisa de ti é essencial:

                                                            não esquecer que te conheces profundamente

Ministro da Nação

Março 10, 2016

 

Caminho pela rua. Um senhor sentado lê Diário da Nação. Na manchete: “STF condena ministro da saúde por desvio de dinheiro”. Caminho mais um pouco. Na próxima esquina, numa lanchonete, um homem assiste Jornal da Nação. O âncora berra que Luís Sesim foi preso hoje, às 06 da manhã, por ter desviado dinheiro do Ministério da Saúde. E é assim na Rádio da Nação, que os mototaxistas ouvem, e na Revista da Nação, que uma senhorita elegante, portando um Ray-Ban no rosto e uma bolsa Louis Vuitton nos braços, lê — e ela deita a revista na mesa do bistrô e comenta com o gerente que é absurda a situação do país.

Neste mesmo dia, mais cedo, a Polícia da Nação foi à casa de Sesim, o ministro da saúde. Sesim mora numa mansão com muros enormes, cercas elétricas, um portão com guardas, um carro com alarme e trava elétrica — pra que ninguém o roube.

soneto de eros

Março 06, 2016

 

quando te entregas ao mar

     perde-te por inteiro

num sonho estrangeiro

     que não vais mais sonhar

 

quanto te entregas ao amor

     perde-te por inteiro

num real despenhadeiro

     que de irreal te traz torpor

 

quando te entregas à paixão

     perde-te por inteiro

pois não há no mundo coração

 

que seja mais que paradeiro

     no final duma canção

que o coração se fez arqueiro

Musa lírica

Março 02, 2016

 

   Entrega-te, oh Erato, à alma dos poetas, cochiche em seus ouvidos doces e sensíveis, toque-os levemente com a ponta dos dedos. Musa da poiesis viva das nascentes de Euterpe, fonte de desejo e gozo, fonte de prazer e luz. Entrega-te, oh Erato, aos homens de mãos tão delicadas, entrega-te como fonte de renascença.

   Oh, Musa amável, fonte de amores e de paixões intensas, Musa lírica de todas as formas de entregar-se. Erato, fonte de amor insano pelo que não tem fim. Amável, afável, fogosa. Fogo que desce do gozo da alma, do gozo do olhar, do gozo das ondas mansas, das marolas, das folhas que caem.

   Entrega-te, oh Erato, à alma dos poetas, cochiche em seus ouvidos doces e sensíveis, toque-os firmemente com a ponta de teus dedos macios — vendavais na vida dos poetas são poesia que dói com o destino…

Agridoce

Março 01, 2016

 

   Após uma discussão, vai a família, feliz por ter solucionado o problema, à pizzaria.

   Lá, outras famílias, também felizes por terem solucionado os problemas pelos quais discutiam, também comemoravam e comiam e bebiam alegremente. É impossível ver algo além de felicidade e amor nestas famílias.

   Assim que a família sentou-se, na mesa à direita o pai abriu a boca, e o filho retrucou-o, em voz baixa. E começou uma pequena discussão quase taciturna. Na mesa à frente, outra família ouve atentamente a discussão da família da mesa à direita, e o pai reclama — e o filho retruca-o e a mãe grita em voz baixa que não se responde mais velhos. Do lado esquerdo, o pai, sentado na ponta da mesa, imponente, assobia quando vê uma puta passar. Sua esposa o repreende e os filhos vão à defesa da mãe, em voz baixa para que a mesa de trás não ouça. Na mesa de trás, uma família qualquer acha estranho a mesa do meio estar em silêncio. A mãe — certamente solteira — abre a boca e sua filha, com percingis no nariz e na boca e nas orelhas e nos mamilos (percebe-se pelo volume na camisa), xinga a mãe em voz baixa.

   Na mesa onde está a família, chega a garçonete, que entrega o cardápio. A mãe prefere calabresa, o filho maior, mussarela, o filho pequeno chora de forma contida pedindo que a pizza seja de quatro-queijos. O pai abre a boca. A família protesta... em voz baixa. O pai escolhe a moda da casa.

   E as famílias, felizes por estarem conciliadas, entopem-se de pizza e refrigerante com gelo e rodelas de limão, que ainda assim é doce.

   E é assim em todas as pizzarias do mundo, e em lanchonetes e hamburguerias e pastelarias. Nos bares vivem os bêbados. E nas esquinas de todo o mundo, principalmente na esquina da pizzaria onde a família come e bebe com fartura, uma criança procura algo num saco de lixo. Sai comendo uma rodela de limão — até a casca. Mesmo sendo tudo muito amargo.

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