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blogue do siman

escritor • crítico • diretor de teatro • editor

as terras do viajante

Abril 23, 2016

 

esta é a história de um viajante que sonhava percorrer todo o mundo e pegar um punhado de terra de cada cantinho do planeta, e, depois de ter visitado todos os lugares que há, juntar todas as terras e fazer um globo de argila (como os que vemos nas aulas de geografia, só que de argila) que não seria habitado nem com guerra, nem com paz

poema vazio

Abril 23, 2016

aos artistas de minas, estado das artes

 

poderia dizer mil coisas

mas nestes versos vazios

só digo o que não tenho a dizer

e pelos meus desvarios

pelos podres poderes de grayskull

e pelos tambores que soam nos terreiros

só digo por metade

(não digo nada por inteiro!)

essa minha falsa verdade

de um poeta mineiro

que por pura falta de vaidade

não é drummond

nem líria

nem nena

nem adélia

muito menos nivaldo

ou rubem

é somente alguém

que mais lê que escreve

que mais ouve que fala

cuja ausência se cala

mais que a presença perdida

de um pedaço de vida

que não acabou de viver

...

poderia dizer mil coisas

nestes versos — outrora — vazios

mas só falo dos rios

e dos mares que minas não tem

e dos montes de aço destes vales próximos a ipatinga

cidade onde vivo e morro

onde me apavoro e corro

onde sou um quase artista

onde grito e me sufocam

— e por isso, talvez por isso

ouço mais do que falo —

mesmo sendo mais um otário

manipulado pelo sistema capitalista

poesexo

Abril 21, 2016

 

te ouvir falando bobagens ao meu ouvido
sentir teu copo tocando no meu, roçando no meu, amassando...
ver que tens, de fato, alma de artista
e que na busca incessável dos prazeres
a poesia anda junto com a libido que anda junto com o gozo
— a poesia, como a libido, é o gozo em si
o gozo em mito e invenção humana
e divinamente soberana a todas as humanidades —
 
te ouvir falando bobagens ao meu ouvido
e perceber que, pra você, tudo não passa de poesia...

deleite

Abril 17, 2016

pra lucas, que ainda! não sei o (sobre)nome

 

deitado  na relva dos sonhos

          os lençóis amarfanhados

          teu corpo é parte do céu

          que é parte do mar

          que é parte onírica do desejo

 

                    e platonizo tua beleza intocável

                    tua insecável fonte de prazeres

                                        tua carne

                                        teu cerne

 

                                        teu ser oculto a mim

                                        e tua face escondida por tuas mãos

                    parece fruto do pecado

                    maçã que nem eva comeu

                    pois não conseguiu alcançar

 

teus lábios inertes em delícia

teus olhos cerrados em formosura

          teu tronco descoberto

          teu sexo desnudo

          — parece-me um sonho inatingível

                                                  inalcançável

de uma fonte inesgotável

de sonhos platônicos, gozo e deleite

poelírios

Abril 15, 2016

escrito ao som de "estrela é lua nova", de heitor villa-lobos

 

os perfumes diversos

               do canto de um sul qualquer

     brincam no verão

     como brincam as crianças

     com seus carrinhos e ioiôs

     e como comem, famintas

     e suas panças          

     e seus passos

     e seus laços de fita na cabeça oca

 

os perfumes diversos

               que exalam de um outono diferente

     orixás que dançam no vento

     e fazem dançar as folhas

     e as hastes esguias do capim

     e oyá, minha mãe

     agradece sua legião de flores amareladas

     e oxalá agradece os lírios brancos

     e oxalá abre à prece os filhos santos

     e xangô não é órfão, é santo

 

                    e nos sonhos mais obscuros

                    onde respiro folhas secas

                    flores mortas

                    e despidas em sua mistificação

                    e o branco vermelho dos olhos

                    na capa de exu caveira

                    faz do homem brincadeira

                    fantoche de si mesmo

                    e, das flores, fantoches do vento

                    e das graças de minha mãe iansã

 

 e na festa de oxalá o vestido que minha mãe esquecerá e que logun colocará enganará meu pai que voltou mais cedo da festa de oxalá que não saberá que logun colocara o vestido de minha mãe e que se desfará pela magia e pelo feitiço e pelos poderes da umbanda

 

salve a pemba

e também

salve a toalha!

se... mas...

Abril 14, 2016

 

se te desse palavras

essas sumiriam

se não as escrevesse

 

se te causasse sentimentos

esses acabariam

se não acontecessem

 

se te desse presentes

esses findariam

mais que de repente

 

se te desse meus lábios

esses morreriam

quase adjacentes

 

[mas há algo que posso dar-te sem preocupação, sem temer o desespero das coisas efêmeras:]

 

meus lábios vão

mas meus beijos ficam

como os amores ficarão

ferro quente que marca a pele

Abril 13, 2016

 

tem gente que marca a gente

a ferro e fogo

e deixa uma cicatriz de todo o tamanho no meio da nossa testa:

“este alguém pertenceu a fulano”

 

e mesmo se não tiver pertencido por inteiro

conta-se como pertenceu

porque a cicatriz é eterna

e é um fardo que você carrega pro resto da vida

e, por não sentir o peso

          — ou por já ter se acostumado com ele —

esquece-se que o tem colocado na testa

                                      no meio da testa

pra que todo mundo veja

 

pra essas marcas, a gente usa pomada

mas não funciona

a gente coloca um gorro a fim de esconder

mas faz arder ainda mais a ferida

          então, não há nada mais a fazer

          a não ser assumir essa cicatriz que temos com o nome desse tal fulano

          e as outras cicatrizes que nos cobrem todo o corpo

dizendo que fomos de sicrano, de beltrano...

                                                                      ...e que já fomos

                                                                         de alguéns

                                                                         alguns dias;

poderia olhar mil partes do teu corpo, mas só escolho uma

Abril 12, 2016

Não pode tal esforço estar perdido.

— Necessário é que existam novas terras,

ou teus pés não teriam renascido!

— Ferreira Gullar, "Pés"

 

poderia olhar

          encantado

     teus olhos morenos

     serenos

     poços de paz

     em momento de torpor

     teus olhos que suponho

                         sem supor

     eu, bisonho

     olhando teus olhos

     castanhos

 

poderia olhar

          maravilhado

     tuas madeixas

     enroladas

     que sobem em direção ao céu

     procurando a escuridão

     de onde esconde a clareza

                         que não têm

     eu e meu apego

     olhando teu cabelo

     negro

 

poderia olhar teus bracinhos

          tuas coxas

          e pernas

          tuas cavernas ocultas

          fontes de todo o desejo do mundo

     poderia querer tua lascívia

     tua parreira do monte oliva

     teu monumento de brincadeira

     em parques eróticos e nada infantis

                         poderia querer todo o teu corpo

mas, diferente que sou

e encantadora que és

quero apenas

teus delicados e grossos pés

               que caminham pelas ruas e vales

               sentem o perfume das manhãs quando pisam no orvalho (as folhas secas no chão...)

               deleitam-se quando lavam-se e surram-se mutuamente em água fervente

               deitam-se e andam com divindade e reciprocidade

                                                                                                     — que é diferente

               teus pés missionários

                         — tão hilários! —

               são rubis ocultos sobre pele

               pérolas ocultas sobre unha

               pés que caminham e calçam e descansam e sorriem

                                                       abrem-se no plié e développé

     e seguem esse balé de tchaikosvky que é a vida

                                                                                   ;

beija-flor

Abril 10, 2016

O bico do beija-flor beija a flor, beija a flor

E toda a fauna e a flora gritam de amor

— Jorge Mautner, "Maracatu atômico"

 

                    beija-flor

          que licor

          é este

                    no teu bico?

          que amor

          é este

                    nos teus lábios?

          é parte de carne?

          metamorfose de sonhos?

          desejo sádico de amar?

     beija-flor

     beija-ondas

                         do mar

 

beija-flor

     beija-rio

     beija-pedra

     que agoniza nos paradeiros

               do tempo contínuo

     que agoniza o dia inteiro

               no tempo exímio

               no verossímil ato

                    — de fato —

          [amasso o retrato

          que esqueci de te entregar

          e o cigarro

          que não acabei de fumar]

 

                                        beija-flor

                                             tu que voas pelos ares:

                                             por que a vida é de azares

                                             e o amor

                                                            de exclusão?

                                        beija-flor

                                             por que dói tanto amar

                                             e ser amado é tão difícil

                                             e entregar-se

                                                                    ao santo-ofício

                                                                    é falta desejo e pão?

                                        beija-flor

                                             tu que sabes melhor que ninguém

                                             que além do amor não tem além

                                             por que o tempo sempre dói

                                                                                             quando me entrego

                                                                                             ao amor?

 

                                        beija-flor

                                        beijador

                                        beija-dor

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