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blogue do siman

escritor • crítico • diretor de teatro • editor

crônica escandalosa e estridente - i

Junho 15, 2016

 

sete e meia da noite. passo pelo pequeno bosque que antecede o parque ipanema. no começo do bosque, um jovem com a camisa erguida exibindo sua barriga definida, acompanhado por um homem alto e gordo e negro, começa a caminhar em minha direção quando me vê, e o alto, gordo e negro o acompanha. vão me pedir cigarros, penso; mas passam por mim, desconfiados, sem dizer palavra. olho pro céu: nuvens densas tentam cobrir a lua crescente quando, no meio do bosquezinho, vejo três homens conversando. um negro, um amorenado e um branco com um capacete na mão. o negro diz: “...ele tem um piru delicioso — quando aquilo escorrega nos meus lábios!...”. não presto atenção no resto. olho pro céu. as nuvens correm, tentando esconder a lua, mas não conseguem porque têm falhas; e a lua prevalece. na entrada do parque ipanema, um rapaz negro me pede um cigarro. dou-lhe o maço, não sei porquê. entro no parque. gaivotas escandalosas irritam-me com seus gritos estridentes; e passam pela lua tentando fazer o que as densas nuvens cinzentas não conseguiram. lelekes ouvem fanque em volume alto, mais escandaloso e estridente que os gritos das gaivotas. velhos e mulheres e jovens correm freneticamente, afobadamente, desesperadamente. oito horas da noite. sento-me num banco qualquer, mas logo levanto, pois sinto fome de fumaça. vou às barracas. nenhuma tem cigarro. volto. o banco onde estava sentado há pouco está ocupado. sento na beirada, distante do jovem negro que fuma o último cigarro do maço que lhe dei. e me diz: “quando você for a valadares a gente se tromba”, levanta-se e sai fumando meu alimento. mas o meu combustível me aguarda na barraca da tia lúcia: uma dose de remédio amarelo e líquido. tomo. pago. motos com policiais passam num vaivém desenfreado (frenético, afobado, desesperado...). luzes vermelhas piscam por sobre as motos alegóricas. e a radiopatrulha emite comandos, mais escandalosa e estridente que o fanque. e os postes com suas lâmpadas esféricas refletem a luz da lua, agora tampada pela insistência das nuvens, das gaivotas, do fanque, da radiopatrulha, da fumaça, dos cigarros e da pederastia mais escandalosa e estridente que as radiopatrulhas. e

 

(continua...)

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