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blogue do siman

escritor • crítico • diretor de teatro • editor

Engole o choro

Janeiro 31, 2018

*

 

“As chaves, as chaves, onde estão as chaves?”, perguntava-se. Encontrou-as no bolso do paletó. Abriu o portão, a porta, abriu a cortina da cozinha pra que um último raio de sol fosse aproveitado. Sentou-se à mesa de seis lugares, aquela mesa que ganhou da mãe quando casou-se e que a ex-esposa queria levar consigo na separação. Mas ela continuava ali, com ele. Naquela mesa, os piores momentos, e os momentos menos piores de sua infância. Naqueles tempos (e ainda hoje), junto com o feijão, engolia o choro.

As ordens do pai ecoaram-lhe por toda a vida. — Era um Kafka!

“Engole o choro”, insistia a voz viva do pai morto, “engole o choro! homem não chora e não se emociona por nada!” Nesse instante, veio-lhe um soluço, que as duras mãos de sua alma amarraram com forte nó na garganta.

Perdera o avô, não chorou; perdera o pai, não chorou; perdera a esposa, não chorou. Estava cansado do trabalho, era quarta-feira. Cada dia mais velho, cada dia mais sozinho. Esquecido pelos que dividem escritório com ele, pelos antigos amigos, pelos entregadores de jornal, por todos.

Seus olhos arderam e coçaram. “Engole o choro”, disse-lhe a voz viva do pai morto. Arregalou os olhos num acesso de raiva.

Que era ele ainda no mundo, além dum peso? Contas atrasadas, pendências no buteco e na padaria, no açougue devia já há anos. Fungou pelo nariz. “Engo…” — matou a voz do pai morto.

Chorou pela primeira vez, simplesmente por ter chegado cansado do trabalho.

 

Nova Viçosa, Bahia

31 de janeiro de 2018

 

*Óleo sobre tela de Giovanni Bragolin.

o beijo

Janeiro 31, 2018

 

pra que temer a onda?

onda é vento com mar

 

é iansão beijando

lábios molhados de iemanjá

 

a onda que chupa a areia

& a onda que chupa a onda

que chupa a areia

 

vendo o beijo na boca & na veia

olhar fixo de gioconda

mar é fria lareira

 

sigo cravado no mar

& meus pés n'areia terçã

 

um beijo de três amantes

eu, iemanjá & iansã

 

nova viçosa, bahia

30 de janeiro de 2018

angelus

Janeiro 29, 2018

a girvany de morais,

cujo talento em minicontos muito me influenciou

nesta tentativa de cópia da sua genialidade

 

6 horas. badalando, o sino da igreja anuncia o angelus entoando uma melancólica ave-maria que ocupa toda a cidade. os pássaros saem em revoada, os lagartos & calangos passeiam correndo pelos muros, as formigas atiçam-se. o sino silencia a melodia. tudo para. a cidade morre, somem os pássaros, os lagartos & calangos, as formigas... transitam nas ruas somente os mal-intencionados, necrófilos, fudendo seus pés nas cadavéricas (& frias) ruas da cidade.

 

periquito

22 de janeiro de 2018

o mar

Janeiro 27, 2018

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o mar ao léu

o mar & o céu

o mar no sol

 

ora me acariciam os pés as ondas

ora me espancam rebentações

 

o mar é um devaneio —

bebendo-me o mar sacia-se

enquanto trama o arrebol

 

o mar ao léu

o mar & o céu

o mar no sol

 

nova viçosa, bahia

27 de janeiro de 2018

Crítica de "Grave, amor", do grupo de escritores da revista Satírika

Janeiro 04, 2018

Em "Grave, amor", um grupo de escritores do Cariri realiza um feito incrível tratando-se de conto e narrativa.

Há, nesse texto, certo quê de experimentalismo — quando seis pessoas se unem e continuam a narração começada por outra —, que torna a leitura ainda mais surpreendente pelas continuações que nos atacam de surpresa fazendo o enredo imprevisível a cada cena.

Numa construção de certo modo kafkiana, Raabe e Vine (personagens profundas e de forte carga psicológica) passam por um momento delicado em seu relacionamento, e a partir dum conflito inicial — a percepção que Raabe tem de seu amor e do comportamento de Vine num inside —, descobre-se personagens tão bem construídas e definidas que é justo glorificar a sensibilidade que seus autores tiveram pra continuar adicionando traços às personalidades sem atrapalhar os traços antes construídos pelos narradores anteriores.

De linguagem ora despudorada e enfrentadora, ora descritiva, elegante e paisagística, o leitor vê, então, a incrível mágica da literatura: as diferentes formas de contar (e continuar) uma história.

Mais que um experimento, "Grave, amor" pode ser usado, também, como objeto de intensa compreensão do que Bauman chamava "amor líquido", a fluidez dos relacionamentos contemporâneos e o peso da internet no nosso cotidiano. Sem prender-se a um passado, o conto aborda o presente e pode ser lido com igual deleite num futuro distante. Aí mora a genialidade dos escritores do Cariri: fazem uma nova literatura tendo forte embasamento e referência clássica.

Sued, Yasmine Tavares, Tayná Batista, Victor Vladmir, Francisco Aurélio e Cícero Weverton conseguiram, com absoluta maestria, fazer o retrato duma angústia íntima que contagia outrem a ponto de tornar-se desastre.

Todas as emoções são possíveis em "Grave, amor", e cada leitura é descobrir novas emoções ocultas nas entrelinhas dum texto que inspira arte e literatura de qualidade, reflexão e impacto.

 

VINÍCIUS SIMAN

crítico literário e escritor

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