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blogue do siman

escritor • crítico • diretor de teatro • editor

se te encontrar algum dia no meio da rua

Abril 09, 2018

a quem(?)

 

se te encontrar algum dia no meio da rua num semáforo num café

me lembrarei com rapidez presente ou terei de buscar no lixo da memória teus traços pra associá-los a um nome oculto & inalcançável?

terei de procurar a criptografia que detém os seus dados (poros rugas marcas de expressão & todo o resto do corpo que conheci milimetricamente)

ou simplesmente ao vê-lo direi: que saudade!

?

 

imagino que agora

agora mesmo

neste exato momento intacto

se te visse passando não reconheceria pois teu rosto faz-se distante & acho que nem no lixo da memória encontraria tua face vazia

depois de três ou trinta dias devia de achar um detalhe que associaria a alguém que passou por mim & que não reconheci — como uma memória inútil de quando uma folha caiu em cima de mim em 2007

 

mas se eu me esquecer bruscamente de ti

saiba

: tua face não mais surtirá efeitos caducos

não me recordarei por certo da textura da tua boca & de teus beijos

não não farei mais poemas porque já terei me esquecido completamente de quem és

ou serás apenas um homem a mais pisando no mundo aguentando o peso da atmosfera nos ombros

[a coluna curva os olhos baixos & tristes um sorriso vincado de dissabores angústias refletidas na face envelhecida]

serás apenas daqui alguns anos um retrato antigo de mim

uma fotografia que olharei no espelho do passado & não reconhecerei mais como eu

 

algum dia se te encontrar

na rua ou no lixo da memória

ai! chorarei por não (re)conhecê-lo!

vultos

Março 28, 2018

*

 

O ódio é o prazer mais duradouro. Os homens amam com pressa, mas odeiam com calma.

LORD BYRONDon Juan

 

até quando passam devagar as pessoas passam rápido demais

 

uma definição antropológica-psicorreligiosa pra raça

: vultos

vultos teimosos & arrogantes

 

gente é isso -- esse vulto perdido numa multidão de vultos

 

gente

toda essa altivez sem cabimento todo esse amargor na língua toda essa pressa

 

a gente corre co’a enchente sem saber aonde vai dar

& a gente pensa que correndo chega mais rápido mas não chega

fechar os olhos & respirar

ver as gentes passando tão rápidas em seus passos calmos

admirar a desgraça das gentes admirando a desgraça das gentes (…)

 

as cidades são cavernas platônicas

as sombras não são signos falsos

as sombras somos nós

nós & essa nossa pressa toda esse vulto de gente pedaço do inferno

 

Óleo sobre tela de Toulouse-Lautrec.

girvany, poeta

Março 27, 2018

ao meu mestre, girvany de morais

em seus anais

em 27 de março de 2018

 

os versos do poeta me abraçam

[um abraço da morte que asfixia -- uma serpente triturando meus ossos]

os versos do poeta me perfuram & perfumam (como o sândalo que perfuma o machado que o fere*)

o poeta é todo de neurônios virados

gosta de me fazer sofrer sobre dragões vociferendo seus detritos**

arrebentando minha cara no chão duro

 

mas o poeta é meu amigo

abraça-me com calor & afeto

chama-me bixinha beija-me a face conversa banalidades

 

vejam

: esse que me fere & arranca meu peito co'a fria faca de seus versos

acarinha-me

compreende-me

& me suporta até altas horas da madrugada quando me falta o sono

 

vejam

: esse poema não é nada

é um pedido apenas (mas não fosse um pedido não seria nada!) --

peço aos deuses que as mãos do poeta

continuem me matando matando sem pena até o fim dos tempos

a ferrugem da faca há de ser meu remédio!

 

* Fala atribuída a Buda.

** De um poema de Girvany, que acompanhei o processo de criação.

tutorial pra novos escritores

Março 23, 2018

*

 

tabula rasa

o pensamento vazio é repleto de subpensamentos

 

há de se destrinchar o pensamento

há de se futucar o chão duro do hiato até achar raiz

há de se fazer com que a raiz vigore

 

um papel em branco é o universo exigindo uma resposta à vida

preencha o papel como se preenchesse um formulário de pesquisa do ibope

 

peça inspirações divinas a deuses inexistentes

ore em línguas estranhas procurando palavras sonoras

(que caibam no poema)

comungue o corpo & sangue de dionísio & vomite esse vinho amargo

beba uísque fume ervas coma cogumelos

sempre é necessário um empurrão um estopim pra parir o poema

; ou apenas assista ao pôr do sol

 

chore até engasgar

ouça músicas depressivas suicide-se volte à vida & escreva

 

 

tabula funda

leia leia & leia

deleite-se em proust flaubert &balzac

machado de assis é bom pra cachorro

experimente os russos que são bons em tudo que fazem!

 

tire zaratustra pra dançar

 

leia leia & leia

kafka guimarães rosa wilde

gullar oswad hilda pessoa

 

manche seus livros de café & rabiscos à lápis

ignore os post-its & abuse do marca-texto rosa fluorescente

 

há de se ler

há de se ler ler

& ler

 

no fundo d’alma vai restar a lembrança de homero em cada livro lido

 

{segredo pra restar a lembrança de homero em cada poema escrito:}

escreva ao menos cinco ilíadas por dia

sem contraindicações

escreva jogue fora ou publique mas escreva depois

[& só depois]

duma dose de lsd (ler sem descanço)

 

 

*Óleo sobre tela de Arthur Berzinsh.

Força do hábito

Março 22, 2018

 

...

— Me diga um hábito estranho que você tem tido ultimamen...

— Tenho chorado às terças.

— Como, chorado às terças?

— Fico a semana inteira segurando choro, aí chega terça-feira e choro.

— Por que na terça?

— Não sei. Fiquei muito tempo na vida sem chorar. Voltei a chorar numa terça. Desde então, não quero dar o braço à torcer e chorar todo dia, mas também não quero mais ficar tanto tempo sem chorar...

— Diferente...

— Diferente não; estranho.

— É... e como funciona? Você acorda e diz "hoje é terça" e chora?

— Não. Eu acordo, bebo meu café, trabalho e vou cultivando tristezas que nos outros dias prefiro ignorar. No ônibus de volta pra casa, às 18h, ouço uma sinfonia triste. Quando chego em casa, sento à mesa, janto sozinho, bebo minha cerveja e choro.

— O momento exato do choro tem trilha sonora específica?

— Não necessariamente.

— E...?

— E é assim. Choro toda santa terça-feira.

— Tem algum motivo concreto pra chorar?

— Ninguém chorar por motivos concretos.

...

uma entradinha, pra abrir o apetite

Março 22, 2018

em maio lançarei águas vivas mortas, meu próximo livro de poemas, todo escrito na bahia, em dez dias. após dois anos do lançamento de corpoesia, publico este, uma volta breve ao mercado, uma onda na minha obra, um livro de poemas de amor ao mar.

pra deixar gostinho-de-quero-mais ou aversão total pela obra, publico aqui meu texto de contracapa e um poemeto, pra ustedes.

 

contracapa

fui à bahia; dei uma de caymmi & tive relações intensas de amor c’o mar, acabei engravidando & pari os 25 poemas deste livro em 10 dias; dopado de lsd (lirismo sem descanso), a gestação foi agradável — & quero que este filho meu & do mar bata com força contra você (como onda em dia de maré cheia) & te deixe também grávid@; me marcou na transa o gozo: ver a espuma das ondas enfeitando a areia de rendas! por fim, não quero que este meu filho cresça nunca — ele assim, imaturo, cheiro de brisa praiana, gosto d’água salgada, é bonito demais de se ver, andando sobre as águas, rindo seu riso livre & moleque; & fim

 

fogo fato

um fato é chama

queimando retinas esvaziando córneas

um fato é frio & farto de sabores

 

parto a carne & o raio que parta o cerne!

 

{um verme no meio do mar

é mar ou ainda é verme?}

 

amar é a maré de azar do ser?

 

fogo fato: fotorretrato

o mar é fraco

forte é o verme fátuo

 

zinickin,

22 de março de 2018

churrasco em sexta da paixão

Março 20, 2018

*

 

 

quarta de cinzas uma cruz de cinza na testa dantes purpurinada

 

até ontem faziam-se festas pelas ruas

hoje o mundo está todo mais triste por quarenta dias & quarenta noites

& eu bebo sozinho querendo a companhia do meu irmão

 

a quaresma é fogo ardendo assando peixes podres

pobres são porcos que mastigam as pérolas da religião

: não não quero obrigado

prefiro estar bêbado de uísque & sofrimento na semana santa

do que fazer jorrar o sangue de cristo & amá-lo

[amo-o distante sem querer proximidades

amo-o a ponto de não querer matá-lo como fazem por ali]

 

churrasquinho de gato em sexta da paixão

os bares fechados as tabacarias fechadas

as lanchonetes as lojas as pernas fechadas

na sexta santa

 

: não quero não obrigado

não quero sudários sangrentos

não quero tragédias encenações cruzes mal pregadas sangue falso de groselha ou tinta-guache

quero ser minha própria comunhão comer meu corpo beber meu sangue

eu-caristia

 

& não há nada o que celebrar na páscoa

estamos em 2018

a única festa que me seduz é a boemia

a herética boemia dos solitários

 

*Obra gráfica de Arthur Berzinsh.

O vestido

Março 05, 2018

Após tantos dissabores, M. saiu sem destino. Caminhou olhando nos olhos dos transeuntes, encarando-os com melancólica seriedade, semblante caído. M. vê-se numa vitrina de loja — seu reflexo, perfeitamente colocado num vestido de festa, o pescoço longo saltando do decote, dando rosto ao manequim sem cabeça.

“O que eu quero?”, perguntou-se. “Eu quero andar sem roupa, mas também quero esse vestido, ver-me nele, sentir a textura do tecido no meu corpo; é isso que eu quero.”

Arrebentou o vidro da loja, o alarme tocou. Arrancou o vestido do manequim como se ele fosse capaz de travar luta. Arrancou toda a roupa, totalmente em pelo. Um vento frio correu em sua espinha. Colocou o vestido.

Como se veria c’o vestido, se quebrou o vidro da loja?

Um atordoamento lógico rompeu do estômago de M. Foi ao chão, flutuando, flutuando o vestido, os cabelos arrancados de pavor flutuando. E morreu após tantos dissabores.

Marcelo, sonhador e mártir

Março 01, 2018

Marcelo, 19 anos, trabalha com burocracia.

Passa o dia todo no escritório, suportando o mundo burocrático em suas costas. Mas Marcelo é sábio: pra compensar tanto trabalho, tantos desaforos, tantas irritações passadas nas doze horas em frente ao computador, pra compensar tudo isso, entrega-se aos pequenos prazeres.

Era um dia como qualquer outro. Logo que chegou no escritório, pensou que, no fim do expediente, compraria um doce pra tirar o amargor que fica na língua quando a gente engole muito sapo. Estabeleceu a ideia fixa do doce. Imaginava a maravilha do brigadeiro branco dentro duma casca de chocolate crocante e, junto ao brigadeiro, dois morangos suculentos, vermelhos, doces.

“Fim de mês”, pensou consigo, “abro mão da passagem pra comer o doce! Vou pra casa a pé.” Sorriu, quase feliz.

As horas escorriam grossas dos ponteiros do relógio na parede cinza. Marcelo sonhava com o doce; pra distrair-se da ânsia que estava prestes a virar obsessão, passou a sonhar com uma cerveja na sexta, depois do trabalho. E assim foi levando a tarde.

17h23. Marcelo anseia extremamente pelas 18h. Entra uma senhora no escritório: “Moço, sou daqui da cidade vizinha, vim aqui trazer minha irmã que tá com câncer e não tenho dinheiro pra voltar pra casa. Faltam só dois reais pra completar o preço da passagem.”

Sem pensar, Marcelo pega seus dois reais e dá à senhora, que o agradece quase às lágrimas, beijando suas mãos. A porta bate às costas da senhora. Marcelo entende que não teria dinheiro nem pra passagem, nem pro doce. O tempo passa rápido. Percorre os quatro quilômetros de distância do serviço à sua casa.

Toma água. Toma banho. Toma mais um gole d’água, fuma e dorme. Em seus sonhos, a esperança duma cerveja na sexta... depois do expediente.

Engole o choro

Janeiro 31, 2018

*

 

“As chaves, as chaves, onde estão as chaves?”, perguntava-se. Encontrou-as no bolso do paletó. Abriu o portão, a porta, abriu a cortina da cozinha pra que um último raio de sol fosse aproveitado. Sentou-se à mesa de seis lugares, aquela mesa que ganhou da mãe quando casou-se e que a ex-esposa queria levar consigo na separação. Mas ela continuava ali, com ele. Naquela mesa, os piores momentos, e os momentos menos piores de sua infância. Naqueles tempos (e ainda hoje), junto com o feijão, engolia o choro.

As ordens do pai ecoaram-lhe por toda a vida. — Era um Kafka!

“Engole o choro”, insistia a voz viva do pai morto, “engole o choro! homem não chora e não se emociona por nada!” Nesse instante, veio-lhe um soluço, que as duras mãos de sua alma amarraram com forte nó na garganta.

Perdera o avô, não chorou; perdera o pai, não chorou; perdera a esposa, não chorou. Estava cansado do trabalho, era quarta-feira. Cada dia mais velho, cada dia mais sozinho. Esquecido pelos que dividem escritório com ele, pelos antigos amigos, pelos entregadores de jornal, por todos.

Seus olhos arderam e coçaram. “Engole o choro”, disse-lhe a voz viva do pai morto. Arregalou os olhos num acesso de raiva.

Que era ele ainda no mundo, além dum peso? Contas atrasadas, pendências no buteco e na padaria, no açougue devia já há anos. Fungou pelo nariz. “Engo…” — matou a voz do pai morto.

Chorou pela primeira vez, simplesmente por ter chegado cansado do trabalho.

 

Nova Viçosa, Bahia

31 de janeiro de 2018

 

*Óleo sobre tela de Giovanni Bragolin.

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