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blogue do siman

escritor • crítico • diretor de teatro • editor

o beijo

Janeiro 31, 2018

 

pra que temer a onda?

onda é vento com mar

 

é iansão beijando

lábios molhados de iemanjá

 

a onda que chupa a areia

& a onda que chupa a onda

que chupa a areia

 

vendo o beijo na boca & na veia

olhar fixo de gioconda

mar é fria lareira

 

sigo cravado no mar

& meus pés n'areia terçã

 

um beijo de três amantes

eu, iemanjá & iansã

 

nova viçosa, bahia

30 de janeiro de 2018

angelus

Janeiro 29, 2018

a girvany de morais,

cujo talento em minicontos muito me influenciou

nesta tentativa de cópia da sua genialidade

 

6 horas. badalando, o sino da igreja anuncia o angelus entoando uma melancólica ave-maria que ocupa toda a cidade. os pássaros saem em revoada, os lagartos & calangos passeiam correndo pelos muros, as formigas atiçam-se. o sino silencia a melodia. tudo para. a cidade morre, somem os pássaros, os lagartos & calangos, as formigas... transitam nas ruas somente os mal-intencionados, necrófilos, fudendo seus pés nas cadavéricas (& frias) ruas da cidade.

 

periquito

22 de janeiro de 2018

o mar

Janeiro 27, 2018

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o mar ao léu

o mar & o céu

o mar no sol

 

ora me acariciam os pés as ondas

ora me espancam rebentações

 

o mar é um devaneio —

bebendo-me o mar sacia-se

enquanto trama o arrebol

 

o mar ao léu

o mar & o céu

o mar no sol

 

nova viçosa, bahia

27 de janeiro de 2018

Crítica de "Grave, amor", do grupo de escritores da revista Satírika

Janeiro 04, 2018

Em "Grave, amor", um grupo de escritores do Cariri realiza um feito incrível tratando-se de conto e narrativa.

Há, nesse texto, certo quê de experimentalismo — quando seis pessoas se unem e continuam a narração começada por outra —, que torna a leitura ainda mais surpreendente pelas continuações que nos atacam de surpresa fazendo o enredo imprevisível a cada cena.

Numa construção de certo modo kafkiana, Raabe e Vine (personagens profundas e de forte carga psicológica) passam por um momento delicado em seu relacionamento, e a partir dum conflito inicial — a percepção que Raabe tem de seu amor e do comportamento de Vine num inside —, descobre-se personagens tão bem construídas e definidas que é justo glorificar a sensibilidade que seus autores tiveram pra continuar adicionando traços às personalidades sem atrapalhar os traços antes construídos pelos narradores anteriores.

De linguagem ora despudorada e enfrentadora, ora descritiva, elegante e paisagística, o leitor vê, então, a incrível mágica da literatura: as diferentes formas de contar (e continuar) uma história.

Mais que um experimento, "Grave, amor" pode ser usado, também, como objeto de intensa compreensão do que Bauman chamava "amor líquido", a fluidez dos relacionamentos contemporâneos e o peso da internet no nosso cotidiano. Sem prender-se a um passado, o conto aborda o presente e pode ser lido com igual deleite num futuro distante. Aí mora a genialidade dos escritores do Cariri: fazem uma nova literatura tendo forte embasamento e referência clássica.

Sued, Yasmine Tavares, Tayná Batista, Victor Vladmir, Francisco Aurélio e Cícero Weverton conseguiram, com absoluta maestria, fazer o retrato duma angústia íntima que contagia outrem a ponto de tornar-se desastre.

Todas as emoções são possíveis em "Grave, amor", e cada leitura é descobrir novas emoções ocultas nas entrelinhas dum texto que inspira arte e literatura de qualidade, reflexão e impacto.

 

VINÍCIUS SIMAN

crítico literário e escritor

tem coisas que só o candomblé faz pela gente

Novembro 27, 2017

Oya2.jpg

 

tem coisas que só o candomblé faz pela gente.

na noite desta sexta fui ao terreiro manzo n’gunzo amazilemba, em coronel fabriciano. ah! aqueles tambores, aquelas danças, aqueles santos, aquelas peles pretas suadas cheias de energias até os dentes... aquele contato direto c'o ancestral em mim, no meu sangue, o contato comigo mesmo através das entidades.

a dança de iansã é bonita por demais pra passar despercebida: seus braços serpenteando raios nervosos no vento, seu passo decidido rumo ao atabaque, sua gira, o suor pingando da face. as palmas nas mãos e na pele de bicho do tambor...

o cheiro da pemba soprada na minha cabeça, o cheiro de rosas inundando o terreiro quando oxum chega, o machado de xangô cortando os ares e as maldições.

tem áreas das mais profundas nas nossas emoções que só elza soares, nina simone e a dança de iansã conseguem alcançar.

anotações após assistir "aquarius"

Novembro 23, 2017

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assisti aquarius. tô cheio de angústias, cheio de incertezas, cheio e agonias e titanomaquias.

anotem: no futuro este vai ser considerado o filme que marcou minha geração.

*

*                  *

aquarius é uma miríade de assuntos importantes e sensíveis.

tudo é genial — a imagem, a trilha sonora, os assuntos tratados, o roteiro, a direção — tudo!

na cena em que clara (sonia braga) volta da praia, tira as alças do maiô, confesso que esperava só um “nu” de seios; mas não, não ficou por isso. o impacto que tive quando vi a mama deformada... ah!

cada detalhe desse filme dá pra levantar mil e um debates.

um filme 100% brasileiro (essa clandestinidade de cenários e figurino e figurantes e linguagem), cuja história — indo contra a correnteza — não se passa no rio de janeiro, cenas muito longas, enfim. é impactante do início ao fim.

quem assistiu aquarius e saiu o mesmo, meu amigo, ou é insensível demais ou não entendeu a grandeza (e também a singeleza) desse filme.

*

*                  *

anteontem eu passei praticamente o dia todo matutando sobre o cinema (e as artes em geral)... se o cinema comporta toda a essência da incoerência humana, o existir estocástico dos homens na vida, etc.

"será que o cinema consegue alcançar o poço mais fundo da alma humana e colocá-la na tela?" — me perguntei, e respondi: "acho que não".

pois eu vi que estava redondamente enganado. aquarius me revelou isso. clara não é mocinha nem vilã e ao mesmo tempo é mocinha e vilã mas não é nada disso — não se encaixa nas binárias clichês da arte comercial, é um ser complexo, nu de frente pro espelho da alma do espectador; é um ser humano ali, sou eu, eu me vi em clara, e aí tá o foda do negócio: clara não é um personagem — é um humano. e não é qualquer humano — sou eu, eu na tela, me assistindo, com toda a minha incoerência e existir estocástico dos homens na vida.

pra não esquecer aquele rapaz que não lembro o nome

Novembro 20, 2017

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agora há pouco estava deitado e me veio uma lembrança agradável dum homem que me possuiu em 24 de dezembro do ano passado (2016), que chegou aqui em casa por volta das três da madrugada fria e partiu às seis da manhã quase ensolarada. lembro-me de todos os detalhes. nos amamos, tomamos banho, conversamos sobre filosofia (helenistas, socráticos, medievais...), religião, política... daí me levantei pra fazer um café, tomamos. fui ligar pra um táxi vir levá-lo de mim; ele se aproximou, me abraçou por trás, beijou-me tranquilamente e me levou pra cama outra vez. mais um banho. fomos à procura do táxi à pé. nos despedimos — ele é de beagá.

dei uma volta, à tarde ele me ligou dizendo que voltaria. nos amamos sob o chuveiro por mais de hora e meia. depois deitamos no sofá (minha cabeça em seu colo). ouvimos e cantamos rita lee (até hoje toda vez que ouço rita lembro-me dele). mostrei-lhe um cronto que escrevi pensando nele assim que partiu pela manhã. um beijo carinhoso. conversamos sobre filhos, casamentos, história e acidentes. ele foi.

de manhã tinha pensado que nunca mais o veria; ele voltou à tarde. à tarde pensei que voltaríamos a nos ver com frequência; nunca mais nos vimos, nem nos falamos.

pra você ver, leitor, que eu não me esqueço nunca de momentos, mas de nomes... ih!

agora alcançaremos o clímax do texto: eu estava deitado há pouco lembrando-me de tudo isso, rindo feito bobo, quando franzo as sobrancelhas e me pergunto: “qual é o nome dele mesmo?” puta que me pariu!... e nada de lembrar!

daí me dei conta de que tinha escrito aquele cronto e que tinha colocado o nome dele lá. revirei minhas caixas, procurando um por um, olhando os títulos de cada folha cuidadosamente e tenho uma luz: bruno! isto! é bruno o nome do rapaz! eureca!

nem arrumei os papéis espalhados pela casa e vim correndo escrever isto antes que me esqueça de novo. agora vou ter que emoldurar esta folha e botar na cabeceira da minha cama. e olha que um dos meus maiores medos sempre foi ter alzheimer — minha família tem uma lista imensa de gente que ficou caduca. ieu, hein!? deus quime livre!

 

obs.: bruno, se você ler isto, peço perdão pelo esquecimento (que está longe de desconsideração, claro). sinto saudade — do café, da filosofia, da rita, da miríade de momentos curtos, de tudo. beijos.

 

madrugada de 17 de junho de 2017

das reflexões que se faz quando bêbado

Novembro 20, 2017

§ 1º ontem, passeando pelo parque ipanema com rubem e girvany, pensei na escrita de rubem. é muito simbolista, praticamente impossível de entender-se. talvez daqui alguns séculos entendam o que ele escreve hoje; e quero estar lá pra entender também. "então por que você gosta tanto de algo que não entende?" -- os meticulosos perguntarão. e respondo: é justamente por isso que gosto tanto do que rubem escreve -- por não entender, por seus textos serem tão indecifráveis e... sei lá!

 

§ 2º abraço é a melhor tática de controle à carência que o sistema capitalista inventou.

 

§ 3º não sei porque tenho tanta paixão pelo experimentalismo musical (lê-se glass, sven-tüür, pärt, reich...), essa loucura toda, essa coisa de gamar numa nota e fazer variações dela horas à fio, entregando ao público uma melodia inacabada e, justamente por ser inacabada, sem fim. só sei que faço viagens intergalácticas e interpessoais e interuniversais com esse tipo de música e que, na última semana, ouvi reich todos os dias. se apaixonar por música experimental, música clássica do século 20/21, não é fácil; requer sensibilidade e frieza -- a frieza dum médico quando decreta um câncer, a sensibilidade dum sertanejo mineiro enrolando o pito e contando causos.

 

§ 4º ainda sobre reich: come out é uma das coisas mais geniais que já ou-vi. caso harlem six -- seis jovens negros foram presos pela polícia de nova iorque por serem suspeitos de matar uma mulher branca. um deles foi espancado na prisão, os policiais não deram importância e ele fez um furo numa das lesões do espancamento pra mostrar pros policiais o que tava acontecendo de verdade. truman nelson, militante dos direitos civis, entregou 70 horas de fitas com áudios dos harlem six a steve reich, e dessas 70 horas de áudio ele pegou quatro segundos apenas, com os dizeres "i had to, like, open the bruise up, and let some of the bruise blood come out to show them", que só aparecem completos três vezes, no início da música, e depois frisa-se "come out to show them" exaustivamente, em looped, até a linguagem desaparecer e virar só melodia. a coreografia da dança incônica que tem come out como tema é de anne teresa de keersmaeker, e essa música com essa dança... ai! meu deus... não sei nem o que dizer além de simplesmente genial!

 

§ 5º "moreninho" é preto arrumadinho, de brusinha cara e tudo mais.

 

§ 6º café em excesso dá o mesmo efeito que cocaína.

 

§ 7º mãe, estou bêbado (ou cheirado?) de café.

se praga de mãe pegasse...

Setembro 09, 2017

dia desses mamãe, falando sobre as proezas infantis do meu pai, disse-me que certa vez ele tinha aprontado uma desobediência escabrosa com sua mãe. ela então, irritada, jogou a pior praga que tinha em mente, a pior de todas as maldições, a pior coisa que uma mãe pode desejar a um filho: “você vai casar com uma preta beiçuda!”

vó abigail (mãe de meu pai) é preta não-assumida. meu pai é preto. preto preto mesmo. minha mãe se diz “parda” (pra começar: pardo não é cor de gente, é cor de envelope). tem traços finos, mas não é tão clarinha quanto pensa. pai dela sim, era branco duzói verde. mãe dela é da cor dela, mãe da mãe dela era branca duzói verde também; nunca chegay a ver o marido de minha bisavó, mas devia de ser preto, porque minha avó e mamãe são “pretas claras”.

eu sou preto. tenho os traços finos de mamãe, mas nem por isso fico mais claro.

mas o que acontece é que, no final das contas, a maldição que vó abigail jogou em papai não pegou — ainda. magina só se praga de mãe pegasse! meu pai estaria fudido e mal-pago. casar com pret@ sempre foi sinal de mal gosto. papai não, papai só anda nos trink’s. é o que se pode chamar de preto d’alma branca.

na foto ali em riba tá friedenreich, craque do futebol brasileiro que, segundo consta, alisava o cabelo e usava smoking. por que até quando todos estavam mal arrumados e descontraídos ele trajava vestes finíssimas? resposta é clara: pra ser respeitado ele tinha que ser mais branco que os brancos!

ubuntu ou eu tenho um herói

Julho 29, 2017

sinikin.jpg

eu tenho um herói. ele tem superforça quando mete o pé na barraca, derruba a mesa e grita "eu (re-)existo"; ele é inteligente, sabe o que fala e, quando fala "eu (re-)existo", pode acreditar — ele (re-)existe; é sábio pra dedéu. tanto que cada palavra que sai da sua boca é semente germinando meu coração pra florir como os ipês lotando a cidade nest'época do ano. vona é vona. é estrela. é energia, fé, luta, calor e afeto.

 

vona mudou-se pra beagá há pouco. avuô, minha andorinha. e ele é tão forte, tão forte, que sabe ser sutil, delicado e adocear o mundo da gente intirim. foi pra lá porque o sol aqui no vale do aço castiga; ficou com pena de nós: imagine só, dois sóis soleando a região!?

luz prórpia, angústia e uma nos-tal-gia toda contente, de quem olha o passado como algo bom, de quem é grato à vida e às coisas e aos homens e ao universo.

vona é como bassora de chêro na minha vida — barre, barre, deixa tudo limpim e ainda deixa um prefume de camomila danado! "passarinho que debrussa — o voo já está pronto", diria riobaldo, diria guimarães rosa, diria o sertão, diriam essas gerais; mas também não adianta avuar: "o sertão é sem lugar".

só agradeço por ter tido a oportunidade de habitar o mesmo sertão de prédios e carros e usinas com gustavo. e daquipoquim chego lá, se a singeleza quiser em nome do espírito das mulheres negras e pelo amor de delza soares! vamos pra belô gritar juntos: "nós (re-)existimos". ubuntu!

AVAN-TÊ!

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