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blogue do siman

escritor • crítico • diretor de teatro • editor

Corpos transparentes

Dezembro 08, 2015

 

“Meu amor era verdadeiro,

O teu era pirata.

O meu amor era ouro

E o teu não passava de um pedaço de lata...”

— Veloso Dias, "Ex mai love"

 

   Sei o seu corpo. Cada centímetro, milímetro, cada dobra de pele, fio de cabelo, imperfeição, cores, cheiros, sabores. Decifro-te todos os dias. Conheço-te no escuro e no claro, no frio e no calor, na paz e no ódio. Sei seu corpo de cor(po). Sei seus pensamentos, suas vertigens, seus desejos; sei seus pontos de sobrepeso e magreza, de arrepio e cócegas. Pelos no rosto, quantos fios; no peito, quantos fios; pentelhos, quantos fios. Sei-te.

   Quanto tempo demora suas excitações, seus devaneios, sua raiva, sei de tudo. E não sei porque já foste meu algum dia — e tu sabes que nunca. Conheço-te em minha imaginação. Se me botassem à sua frente, diria tudo o que tens, sentes, és, ou talvez não, por estar acostumado demais com uma ideia do que seja, do que possa ser, do que eu queria que fosse (meu).

   Amores quase platônicos são como doenças crônicas. Podemos amar uma, duas, cinco, dez vezes platonicamente, mas nenhum amor passa. Descansa, talvez, mas não acaba. Ama-se sozinho, cansa-se de amar sozinho, então apaixona-se outra vez a fim de ser amado, mas é só mais outro amor platônico a espreitar o coração.

   E na coleção de amores platônicos — ou quase-platônicos —, troféus de ouro são escondidos, enquanto os de pura lata são expostos em prateleiras de marmoraria fina, vermelha, a que chamamos coração. E a prateleira enche-se cada vez mais. Nenhum troféu de lata é jogado fora. Quanto ao ouro, exploram-nos e roubam-nos; ou jogamos fora por não sabermos (ou não darmos atenção para) o valor que têm.

   Pura lata ocupa a estante do meu coração.

Entre poetas & atores maconheiros

Setembro 06, 2015

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   Formamos uma roda. A noite caía lenta sobre nossos ombros e pensamentos cansados e deixávamo-nos ser livres por segundos. O efeito era sorrateiro, paz, amor, paz, paz, amor, amor, paz... E a fumaça passava de boca a boca por beijos sem língua, sem toque completo de lábios. “A polícia lá vem!”, ora ou outra alguém dizia, mas estávamos todos de boa, na vibes positiva, no ápice da tranquilidade humana. As cabeças giravam, as folhas giravam, o cigarro girava na roda. Liamos poesia. K. com sua poesia suicida, C. com sua poesia depressiva, S. com sua poesia melancólica e todos com drama nos olhos caídos e avermelhados.

   Paz, amor, paz, paz, amor, amor, paz...

   O carinho era mútuo. Todos se amavam por ali. E chorávamos nossos amores antigos, e riamos nossos momentos felizes há horas atrás, na companhia de teatro. E lá éramos todos bixas, todos mulheres, lésbicas, negras, candomblecistas, budistas, espíritas, bruxos... éramos todos todos, éramos todos nós.

   E o cigarro passava de boca em boca. Três becks e várias voltas na roda que não parava de girar. “Cortei meus pulsos/ pulsos cansados/ pulsos/ pulsos amarrados/ pulsos”, “deixei de amar”, “sofri por amor”, “vamos fazer uma suruba?”, “minha liberdade é tão pouca!”, “a brisa é louca”, “minha alma precisa de ser feliz”, “porra!”, “porra!”, “porra, porra!”... E fomos felizes... K. se despediu gostosamente com um beijo em meu rosto. C. e os outros — não cheguei a contar quantos são; não fazia diferença — permaneceram na roda. E na roda giram as cabeças, as folhas e o cigarro.

   Peguei na erva e quase fiz derrame. Passei pra S.; e todos fumamos como se estivéssemos fumando poesia e artes cênicas. As fadas, os unicórnios, os gnomos, os discos voadores, os serafins dos mais altos céus pararam a madrugada pra ver-nos fumar. Nossa primeira vez ficou pra história. E não sonhei em desacordo. Vivi minha poesia e fumei minha vida em cigarros de maconha.

 

minha poesia

               domina minh’alma

     e refresca meus pensamentos direcionados aos problemas cotidianos.

fui livre e estou, agora, a voar!

          minha cabeça agora é pura poesia

                                                       — e calmaria —.

     fumei, com o papel em que escrevi meu poema,

o cachimbo da paz & do amor.

Durmo tarde todos os dias

Julho 28, 2015

A Isac dos Anjos, o Gentil
Que são as pequenas coisas que ocupam grande espaço em nossa vida senão fragmentos?
 
   Durmo tarde todos os dias.
   — De que são feitas as madrugadas insones em que você se instala e conforta? — Todos me perguntam.
  — Mas não precisam ser feitas, nem preenchidas; a (des)graça da insônia é não ter nada pra fazer, senão ser. — Respondo a todos.
    — No dia você não é?
  — No dia eu sou o que querem que eu seja. Você sabe bem como funciona a sociedade em que vivemos... — Respondo a todos.
   — E por que finge ser alguém que não é? — Todos me perguntam.
   — Não finjo, ajo. — Respondo a todos.
   — E por que age assim? — Todos me perguntam.
   — !!! — Respondo a todos.
  Parece até que a minha exclamação sem fala, sem pensamento, sem nada — vazia, apenas — se torna uma interrogação inquietante nas cabeças pequenas dos grandes interlocutores.
   — ??? — Todos pensam.
   Mal sabem eles que a minha exclamação não é irônica... é tão vazia quanto minhas madrugadas insones!

Crônica do dia do escritor: o único lado

Julho 25, 2015

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Quando não escrevo, morro.

Quando escrevo, também.

— Gabriel García Márquez

 

   Hoje reencontrei um antigo amigo meu. Cumprimentamo-nos, jogamos conversa fora e ele me disse que andou lendo uns livros meus e que duvidava que eu era capaz de fazer aquilo tudo. Romances, tragédias, policiais, mistérios, suspenses... “afinal, de onde vem tanta genialidade?”, indagou meu amigo. Sem saber o que responder, fiquei petrificado por algum tempo. Me veio, então, a vontade de retratar àquele homem o lado sofrido de ser escritor — afinal, é o único lado.

   “Ser escritor não é nada do que dizem os psicólogos”, disse eu, “não é uma válvula de escape, não refresca a alma coisa alguma — a não ser que se tenha um freezer imaginário. É árdua a dor do sofrimento dos personagens, viver e sentir como eles, sê-los. É ruim morrer de amores todos os dias e ressuscitar por precisar escrever mais. É ruim beber café doce e senti-lo amargo, descendo a garganta, comer doce-de-leite e aguçar o lado picante da língua. Nada entra — a não ser tristeza, nada sai — se não for escrito.”

   Depois desse papo doido, assustado, meu amigo respondeu: “escritores são felizes, pois ficam ricos sem fazer nada”. Respondi à alto nível: “para escrever, um escritor dá sua alma, sua vida. É uma troca, aparentemente, feita com o Demônio: ou entrega sua alma ou seu coração: de qualquer modo, no fim das contas, se entregar sua alma, seu coração vai junto; se entregar seu coração, sua alma também irá. Ser escritor é sinal de entrega: ‘te dou minha alma se me deres dor, tristeza, solidão’”.

   Ele me olhou assustado, pensando que eu estava precisando me internar urgentemente em um manicômio, afastou-se de mim dizendo: “ser escritor é coisa de gênio. Ser gênio é coisa de escritor”.

   Até hoje não entendi direito o que ele quis dizer. Não sei se foi irônico, mas, de qualquer modo, o que vale é a intenção. Voltei para casa para escrever mais um bocado. Me afoguei em canecas de café, entre um e outro parágrafo ou verso. Cada um interpreta o “ser escritor” que quiser, mas só sabe de verdade que/quem é um escritor, quem “vive escritor”.

 

25 de julho, dia do escritor.

 

Publicado na revista Genia! em 25 de julho de 2014

Te vi

Julho 19, 2015

A Rubem Leite, que amo tanto

 

   Era noite. Eu estava lendo Aquela canção ao som de Un vestido y un amor, por Caetano Veloso. As reminiscências faziam-se presentes. Anotações nas beiradas do livro não poderiam ser mais diretas em sugerir-me seu nome. Insistiam. Os garranchos... uma só linha, sem emendas, cortando os tês; linhas paralelas à profundidade das notas: vultos de memória, inspirações, rabiscos avulsos. Sua voz insistia:
   — Vou-me já.
   — ...antes que o diarreia! — Completou a mente pela força do hábito.

***

   Saíamos do Tuffik Cozinha Árabe; estávamos nos despedindo da Vera. Saíamos da Escola Canuta Rosa; nos despedíamos da Adriana. Na Câmara dos Vereadores fizemos uma zona — todos de lá são muito burros! —; nos despedíamos da Maura. Estávamos em sua casa, sentados na cama, olhando a biblioteca e conversando. Avistei Aquela canção. Achei interessante. Você me emprestou.
   — Vou-me já. — Você insistia.
   — ...antes que o diarreia!
   E isso tornou-se um mantra... mantra que, como diria Vitorio Díaz, “fez-se mais que cotidiano — simplismo do dia-a-dia —, fez-se parte vital do corpo.”

***

   Fechei o livro, acendi um cigarro e algo restou em mim, além do hálito de poesia e da imitação mais engraçada de viado que vi em toda a vida. Levantei-me da banqueta. Dancei pela casa cantando para o mundo ouvir: “te vi, te vi, te vi, yo no buscaba nadie y te vi...”

   Algo restou em mim(?).
   As partes vitais do corpo já decomposto pelos vermes(?).

Crônica dos dezesseis anos

Junho 24, 2015

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   Eu nunca tive nada que chamasse a atenção dos homens.

   Em certo ponto, resolvi me vestir bem, me enturmei com pessoas da minha idade, fingi ser mais imaturo do que já era, e mais burro também.
   Mas nestes últimos meses, refleti e cheguei à seguinte conclusão: não vou fingir ser quem eu não sou. Pode até parecer uma coisa boba, mas foi um verdadeiro ato revolucionário (no ponto de vista egoísta e egocêntrico de todo ser humano)!
   Nunca gostei de me arrumar todo, e coisa e tal. Agora não vou dizer que meu estilo é maltrapilho, mas que é MEU. Não adianta tentar rotular-me pelo meu modo de vestir, pensar ou agir: não adianta tentar rotular-me.
   Mudei também meu pseudônimo. Pode ser feio, mas, como diria Rubem Leite​ citando a mulher de uma novela qualquer: meu nome é feio, mas é MEU.
   Chutei o balde ouvindo Maysa, escrevi pra caralho, sofri e parei de fingir. Não tenho mais vergonha da minha cara feia, do meu corpo desnutrido, nem das minhas olheiras, antes disfarçadas por uma tal de Mary Kay. Não passo mais base nas unhas. Muitos dizem que estou desleixado, mal-amado, mas é muito pelo contrário: nunca me senti tão amado e cuidado quanto agora, e, confesso: até mais olhado nas ruas.
   Por mais que eu continue me odiando, agora aprendi a me amar, e isto está sendo uma parte primordial da minha vivência espiritual. Me sinto um ser mais evoluído e até mais maturo.
   Não tenho medo de perder falsas amizades nem de me apaixonar. Se for pra morrer de amor ou pelo ódio que causei em alguém, que seja, mas morrerei por ser, tão somente, EU!

 

NOTA: Aos demais que acharam a imagem um absurdo: desculpem pela implicância.

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