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blogue do siman

escritor • crítico • diretor de teatro • editor

digestão

Junho 07, 2016

a “lucas”, que — ainda (e mais uma vez)! — não sei o (sobre)nome

 

você, quando me mastiga

                     e me cospe

     me mostra uma nesga de céu

                         um raio de sol

               só por ter sido sua saliva

               e mergulhado em sua boca

                    no espaço sideral de seu céu

                    ter feito parte dos corpos celestes

                    dos seus dentes

               (que me mordem

                        me mastigam

                     e me empurram pra fora)

 

você, quando me mastiga

                            e engole

     rasga, de alto a baixo

     o véu do firmamento

                                        que há em meu corpo

               e são minhas vestes

                         e meu ventre

                         e minhas ventas

 

quero ser comido por você todos os dias

só pra ser parte homogênea da sua saliva

e cessar sua ira e sua raiva e seu asco

: o nojo que sentes de mim não é tanto

                                        que não se compre

uvas passas

Maio 29, 2016

 

quando tudo passa

não dá-se conta de que existiu

só se sabe que passou

de repente

passou

o que não iria passar

o que era o fim do mundo

o que te mataria

o que acabaria com o futuro

— seu e da nação —

passou

 

o importante é que tudo passa

e passa muito bem

                               , obrigado

felino

Maio 28, 2016

 

bicho de cara peluda

que me encanta

          doce

e me inebria

          algoz

     de noites & dias

de queda e foz

 

bicho de boca carnuda

que me espanta

          fosse

o que era

          canto

     e não era tanto

de deleite e encanto

 

bicho que nunca muda

que me serve de manta

          deitado

na relva

          ;sonho

     e era só fantasia

de um rosto risonho

 

(que sorriso é esse teu?

que infame desacordo com o mundo

(e os encantos do mundo)

e tudo

um tanto

me iludo

— mas não desencanto)

 

felino de unhas e dentes

de garras e presas e estalos

          :prenda-me a teus pés

e não me deixes soltá-los

será arte?

Maio 15, 2016

 

Se o inimigo deixa uma porta aberta, precipitemo-nos por ela.

SUN TZU, A arte da guerra

 

nas entranhas do mundo

descansa o objeto indesejável

          que o universo já expulsou de seu meio

          e que os homens — quando vai — desconhecem como irmão

 

                              o objeto

                                   abjeto

                              impõe fé

                              nos dejetos humanos

 

          na lixeira do universo

          expulso das coisas cósmicas

                    impelido a expurgar as galáxias

                                    a aniquilar os astros

                                    a cegar os olhos dos homens

                    nasce o objeto não-identificado

                              que não sobrevoa nos ares

                              — pois os céus o expulsaram —

                              mas percorre os labirintos

                                        nas partes mais profundas da terra

que fervilha o sangue dos homens

e forma milícias e destrói províncias

 

                              nasce

                              no seio desta humana terra

                              a arteorrenda da guerra

foi tudo ilusão passageira que a brisa primeira levou?

Maio 13, 2016

escrito ao som de "cantiga brava", de geraldo vandré

Eu, que dos filhos teus

Fui te querer demais

VANDRÉ & MANDUKAPátria amada idolatrada salve salve

 

          descer a rampa

          e subir o altar da veleidade democrática

seguir a caminhada mesmo interrompidos os passos

seguir com os braços

seguir com as forças que desconhecemos

seguir lutando

           velando

pela delicada flor

que agora perde mais uma pétala

                                                      — mas não murchou!

 

descer a rampa

e subir o panteão da história

e beber do vinho de jango

e comer da ceia de olga

                            junto de marighella

                            e herzog

 

(ano de 2064 — retrocesso)

 

                                        descer a rampa

                                        e pisar em rosas

                                                  literais

                                        mas na esperança

                                        de ainda deixar

                                        a delicada flor intacta

                              e que não a despetalem mais

 

descer a rampa

e descê-la com gente

                 com mulheres

                 com negros

                 com pobres

                 com graça e dignidade

     sem perder a honradez

     e o amor à pátria

     e à delicada flor

 

não irei impor

nome a esta abstrata e platônica flor

mas se alguém pôr algum dia

que chame-se democracia

poema vazio

Abril 23, 2016

aos artistas de minas, estado das artes

 

poderia dizer mil coisas

mas nestes versos vazios

só digo o que não tenho a dizer

e pelos meus desvarios

pelos podres poderes de grayskull

e pelos tambores que soam nos terreiros

só digo por metade

(não digo nada por inteiro!)

essa minha falsa verdade

de um poeta mineiro

que por pura falta de vaidade

não é drummond

nem líria

nem nena

nem adélia

muito menos nivaldo

ou rubem

é somente alguém

que mais lê que escreve

que mais ouve que fala

cuja ausência se cala

mais que a presença perdida

de um pedaço de vida

que não acabou de viver

...

poderia dizer mil coisas

nestes versos — outrora — vazios

mas só falo dos rios

e dos mares que minas não tem

e dos montes de aço destes vales próximos a ipatinga

cidade onde vivo e morro

onde me apavoro e corro

onde sou um quase artista

onde grito e me sufocam

— e por isso, talvez por isso

ouço mais do que falo —

mesmo sendo mais um otário

manipulado pelo sistema capitalista

poesexo

Abril 21, 2016

 

te ouvir falando bobagens ao meu ouvido
sentir teu copo tocando no meu, roçando no meu, amassando...
ver que tens, de fato, alma de artista
e que na busca incessável dos prazeres
a poesia anda junto com a libido que anda junto com o gozo
— a poesia, como a libido, é o gozo em si
o gozo em mito e invenção humana
e divinamente soberana a todas as humanidades —
 
te ouvir falando bobagens ao meu ouvido
e perceber que, pra você, tudo não passa de poesia...

deleite

Abril 17, 2016

pra lucas, que ainda! não sei o (sobre)nome

 

deitado  na relva dos sonhos

          os lençóis amarfanhados

          teu corpo é parte do céu

          que é parte do mar

          que é parte onírica do desejo

 

                    e platonizo tua beleza intocável

                    tua insecável fonte de prazeres

                                        tua carne

                                        teu cerne

 

                                        teu ser oculto a mim

                                        e tua face escondida por tuas mãos

                    parece fruto do pecado

                    maçã que nem eva comeu

                    pois não conseguiu alcançar

 

teus lábios inertes em delícia

teus olhos cerrados em formosura

          teu tronco descoberto

          teu sexo desnudo

          — parece-me um sonho inatingível

                                                  inalcançável

de uma fonte inesgotável

de sonhos platônicos, gozo e deleite

poelírios

Abril 15, 2016

escrito ao som de "estrela é lua nova", de heitor villa-lobos

 

os perfumes diversos

               do canto de um sul qualquer

     brincam no verão

     como brincam as crianças

     com seus carrinhos e ioiôs

     e como comem, famintas

     e suas panças          

     e seus passos

     e seus laços de fita na cabeça oca

 

os perfumes diversos

               que exalam de um outono diferente

     orixás que dançam no vento

     e fazem dançar as folhas

     e as hastes esguias do capim

     e oyá, minha mãe

     agradece sua legião de flores amareladas

     e oxalá agradece os lírios brancos

     e oxalá abre à prece os filhos santos

     e xangô não é órfão, é santo

 

                    e nos sonhos mais obscuros

                    onde respiro folhas secas

                    flores mortas

                    e despidas em sua mistificação

                    e o branco vermelho dos olhos

                    na capa de exu caveira

                    faz do homem brincadeira

                    fantoche de si mesmo

                    e, das flores, fantoches do vento

                    e das graças de minha mãe iansã

 

 e na festa de oxalá o vestido que minha mãe esquecerá e que logun colocará enganará meu pai que voltou mais cedo da festa de oxalá que não saberá que logun colocara o vestido de minha mãe e que se desfará pela magia e pelo feitiço e pelos poderes da umbanda

 

salve a pemba

e também

salve a toalha!

se... mas...

Abril 14, 2016

 

se te desse palavras

essas sumiriam

se não as escrevesse

 

se te causasse sentimentos

esses acabariam

se não acontecessem

 

se te desse presentes

esses findariam

mais que de repente

 

se te desse meus lábios

esses morreriam

quase adjacentes

 

[mas há algo que posso dar-te sem preocupação, sem temer o desespero das coisas efêmeras:]

 

meus lábios vão

mas meus beijos ficam

como os amores ficarão

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