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blogue do siman

escritor • crítico • diretor de teatro • editor

Prefácio de Flávia Frazão a "Águas vivas mortas"

Abril 24, 2018

“Mortuus ut vivas vivus moriaris oportet.”

(“Mortos vivos para viver devem morrer.”)

 

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 Ao receber os originais de Água vivas mortas fui tomada de alegria e encantamento. A tarefa de prefaciar ficou ao lado, primeiro à degustação. Poesia precisa ser bebida, com vinho, de preferência.

Sorvi o vinho e Águas vivas mortas com deleite. Como leitora me senti deslumbrada porque vi revelado o mistério do não-revelado. O mar do indivíduo, único e ao mesmo tempo universal.

Em todo o livro há uma mistura do eu com o mar. Tentativa de entendimento e libertação do eu. Um eu que se mescla no outro, no mar e em si mesmo como espelho narcísico.

O jovem poeta e amigo Vinícius Siman fez uma revolução em sua própria poética estético-literária, se assim podemos dizer, fazendo uma análise diacrônica de sua obra. Corpoesia, seu último livro de poesia, já apontava para sua poética sagaz e inteligente. No entanto, percebe-se em autores muito jovens um eu lírico com percepção de mundo ainda relacionado com sua pouca experiência. No caso de Siman, nada que prejudicasse sua qualidade literária, apenas um estreitamento de percepção do mundo e das relações amorosas. Ainda assim uma grande obra. Já em Águas vivas mortas seu olhar está mais apurado e refinado. O então autor-menino aqui se configura como autor-Siman, dono de um novo e amadurecido olhar sobre a realidade do mundo e sobre a realidade amorosa. Mantém com excelência a qualidade de seus versos.

               O título do livro é ao mesmo tempo provocação e mistério. Ele desperta o leitor para múltiplos e possíveis significados. Provocação que faz buscar as conexões semânticas dentro desse vai e vem de ondas que formam o mar textual de Águas vivas mortas. Mistério porque seu sentido está para além do texto, num entre-lugar sugerido, mas alcançado apenas pelo leitor atra-vés de suas próprias inferências.

               A temática é perpassada por diálogos filosóficos, mitológicos, políticos, artísticos, religiosos e outros. Um universo intertextual que passa por discos voadores, bússolas, Dorival Caymmi, Iemanjá, areia, maré, fogo, luz, rachaduras, pescadores, águas vivas e o mar.

Poesia não pode ser apenas emoção, ou estética, ainda menos, só razão. Ela é a arte de dizer além do texto. Expressar o poético indizível. Tocar o inalcançável através da arte com as palavras. A grande chave que abre o universo poético nessa obra é a sensibilidade simeana que toca o intocável, penetra o intangível, e assim cumpre a mais profunda função da arte e da poesia.

Os versos de “Fogo fato”, por exemplo, são belíssimos. Ultrapassam os sentidos comuns. Revelam intuição poética. Um poema se justifica quando ele alcança o não-lugar. O leitor pode entender ou apenas sentir, e ainda assim ter uma compreensão profunda através dos sentidos.

 

{um verme no meio do mar

é mar ou ainda é verme?}

 

amar é a maré de azar do ser?

 

fogo fato: fotorretrato

o mar é fraco

forte é o verme fátuo (p. 33)

 

Quando o leitor alcança esse não-lugar pode chamá-lo de arte, deus, buda, mar ou apenas mistério.

Em “Pedido de socorro” pode-se apreender um diálogo com nosso tempo de agruras políticas e sociais. Já “Discos voadores”, um deboche da sociedade contemporânea, proselitista, ortodoxa que se contrapõe à sensualidade poética de “Amor na praia”. Sêmen do mar, corpos e sexo se conectam numa ressaca:

 

{no exato momento que uma onda se

[quebra na rebentação

& vem lamber seus pés

seu orgasmo mistura-se ao orgasmo do

[mar} (p. 31)

 

Mortos vivos para viver devem morrer. A frase em latim já abarcava a semântica da morte que cede lugar à vida.  Águas vivas mortas me remete a esse ciclo vida-morte, morte-vida. Um no outro, um dando lugar ao outro, numa (co)existência mútua e cíclica. A simbologia se aplica tanto à obra que aponta para o novo, pra vida, a partir da morte (ressignificação) da realidade contemporânea, quanto para a ressignificação e reconstrução do próprio autor, numa nova fase de sua literatura.

E como se estivéssemos para sempre debruçados sobre Águas vivas mortas depois dessa leitura, relembro Drummond em seu verso: “O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.”

 

FLÁVIA FRAZÃO, professora e escritora

Ipatinga, fevereiro de 2018

Crítica de "Grave, amor", do grupo de escritores da revista Satírika

Janeiro 04, 2018

Em "Grave, amor", um grupo de escritores do Cariri realiza um feito incrível tratando-se de conto e narrativa.

Há, nesse texto, certo quê de experimentalismo — quando seis pessoas se unem e continuam a narração começada por outra —, que torna a leitura ainda mais surpreendente pelas continuações que nos atacam de surpresa fazendo o enredo imprevisível a cada cena.

Numa construção de certo modo kafkiana, Raabe e Vine (personagens profundas e de forte carga psicológica) passam por um momento delicado em seu relacionamento, e a partir dum conflito inicial — a percepção que Raabe tem de seu amor e do comportamento de Vine num inside —, descobre-se personagens tão bem construídas e definidas que é justo glorificar a sensibilidade que seus autores tiveram pra continuar adicionando traços às personalidades sem atrapalhar os traços antes construídos pelos narradores anteriores.

De linguagem ora despudorada e enfrentadora, ora descritiva, elegante e paisagística, o leitor vê, então, a incrível mágica da literatura: as diferentes formas de contar (e continuar) uma história.

Mais que um experimento, "Grave, amor" pode ser usado, também, como objeto de intensa compreensão do que Bauman chamava "amor líquido", a fluidez dos relacionamentos contemporâneos e o peso da internet no nosso cotidiano. Sem prender-se a um passado, o conto aborda o presente e pode ser lido com igual deleite num futuro distante. Aí mora a genialidade dos escritores do Cariri: fazem uma nova literatura tendo forte embasamento e referência clássica.

Sued, Yasmine Tavares, Tayná Batista, Victor Vladmir, Francisco Aurélio e Cícero Weverton conseguiram, com absoluta maestria, fazer o retrato duma angústia íntima que contagia outrem a ponto de tornar-se desastre.

Todas as emoções são possíveis em "Grave, amor", e cada leitura é descobrir novas emoções ocultas nas entrelinhas dum texto que inspira arte e literatura de qualidade, reflexão e impacto.

 

VINÍCIUS SIMAN

crítico literário e escritor

Crítica teatral: "As aventuras do Super-Quixote", da Cia. Coletivo Aberto

Fevereiro 17, 2016

 

   As aventuras do Super-Quixote, de Léo Coessens, conta a história de um velho que, de tanto ler histórias de cavalaria, enlouqueceu e se autodenominou Super-Quixote. Mal sabem os desprezíveis adultos de coração que Super-Quixote está com tamanha sanidade que consegue ser do tamanho dos seus sonhos! Durante todo o espetáculo, martelou em minha cabeça a seguinte frase de Pessoa, na sétima parte de O guardador de rebanhos: “eu sou do tamanho do que vejo”, e ser do tamanho do que vê, ser do tamanho dos seus sonhos, hoje em dia, é um ato heroico.

   Com a ajuda de uma organização magnífica e um texto muito bem escrito, As aventuras do Super-Quixote passa uma mensagem renovadora ao espectador — seja criança ou adulto —: sonhar custa muito nos tempos de hoje, e devemos facilitar a vida dos que sonham e sonhar como eles.

   Os atores usufruem de forma única de uma mistura de emoções e momentos que deixa boquiaberto qualquer leigo, como eu, e, creio, qualquer crítico que não sou.

   Momentos engraçados e dramáticos, irreverentes e contidos fazem do espectador uma chave importantíssima pro desenvolver da peça, como o que sempre tenho dito: se o teatro não está em contato com quem assiste, não é renovador. Todos, até os mais insensíveis, comungaram das emoções dos atores e se entregaram à história de um velho sonhador que, de tão lúcido, parece até ser louco.

   Os maravilhosos atores Barbara Pavione, Camile Gracian, Gustavo Nascimento e Léo Coessens fizeram da história do Super-Quixote um deleite ininterrupto de sonhos reais, onde se refugiam os que estão cansados da rotina e as crianças que só querem mais tempo pra viver e sonhar conforme a roda da vida gira. E esta bola que o mundo é gira com a vida das crianças, dos adultos e dos chatos adolescentes — que não gostam de nada —, e traz, pra maravilha de todos, este magnífico espetáculo.

   Apesar de ser uma peça direcionada ao público infantil, As aventuras do Super-Quixote, impressionantemente, é capaz de seduzir e encantar pessoas de todas as idades.

 

   AVANTE!

Crítica literária: "Prometeu da mitologia cristã", de Sued

Janeiro 08, 2016

prometeu.jpg

   Prometeu da mitologia cristã vai muito além de uma simples crítica ao cristianismo: é um inimigo da ignorância e da omissão do passado cristão, e, diferente de muitos autores dessa linhagem crítica, Sued não atua somente no passado cristão, mas, principalmente, nas consequências contemporâneas causadas pelas igrejas e seus fiéis.

   “Estamos nos tornando tolerantes à intolerância?”, é a pergunta que nos faz Sued no prefácio de Prometeu da mitologia cristã, apontando, desde já, para um horizonte libertador e visionário. E, muito mais que perguntas, muitas afirmações são cravadas em chão firme, tendo sua base bem estabelecida e sólida por argumentos capazes de silenciar qualquer boca que abra-se para proclamar bobagens.

   Prometeu da mitologia cristã vai muito além de um estudo tendencioso para pessoas específicas, muito pelo contrário, este livro é um estudo obrigatório para todos que desejam saber o passado e o presente obscuro do cristianismo. Um autêntico estudo bíblico, assim definiria Prometeu da mitologia cristã. A revolucionária autora marca sua personalidade inteligentíssima em cento e nove páginas, apresentando à sociedade um estudo autêntico e ímpar da história do cristianismo. “O Diabo”, afirma Sued, no capítulo IX, “num ponto de vista contemporâneo, é o herói da Bíblia, ele liberta o homem da alienação do Éden”.

   Sued é uma autora objetiva quando quer dizer algo, e essa identidade direta de Sued faz com que ela fique considerada, muitas vezes, escandalizada. É escandalizado quem discorda da grande massa, quem não se deixa manipular pelo Sistema, e há uma nova geração de autores independentes não aceitos pelo mercado editorial que quebram todos os tabus e publicam-se de forma independente. Mesmo assim não podem ser considerados piores que os autores publicados por grandes editoras, pois, todos sabem, editoras compram resultado, aceitação, não qualidade. E mesmo assim Sued continua, independente e maravilhosa, pelos caminhos da literatura crítica.

   Prometeu da mitologia cristã e Sued são o espelho indesejado de uma sociedade cega. — E Sued e o Prometeu resistem!

Crítica literária: "Benjamim", de Chico Buarque

Dezembro 10, 2015

   No tilintar das balas que saem pelas culatras das armas que o apontam, Benjamim Zambraia é capaz de relembrar os seus últimos dias, as alegrias, as tristezas, as pessoas, a conexão do passado com o presente através de uma moça — Ariela Masé — que tem a fisionomia idêntica à de uma antiga namorada — Castana Beatriz —.

   Benjamim é um romance que aborda uma paixão que um velho modelo fotográfico sentiu por Castana, mulher pela qual se apaixonou desde a primeira vez que a viu. Depois de muitos anos, Benjamim encontra uma mulher idêntica a Castana; só pode ser filha dela — pensa —, e a partir daí, vezes segue Ariela, vezes encontra-se repentinamente com ela, e começa a apaixonar-se pela moça que conheceu por acaso e esquecer-se de Castana, o amor de sua vida.

   Como costumeiro nas obras de Chico Buarque, é surpreendente a forma com que o autor vive cada personagem e adiciona a cada um uma personalidade caricata, dificilmente encontrada em outros autores — que eu, até hoje, percebi somente em Erico Verissimo e na peça Viajando nas palavras do Brasil, de Dinei Gonçalves.

   Aproximando-se do final, emoções, suspense e surpresas tornam a leitura — que já era, até então, agradabilíssima — ainda mais gostosa e envolvente.

   A paixão que Benjamim começa a sentir por Ariela (não) é maior do que a que este sente pela enorme Pedra que há em frente às janelas de seu apartamento, sua companheira de todas as horas. No momento em que Ariela vê a Pedra e corre, Benjamim estremece, cogita e toma uma atitude que o fará rever toda sua história.

 

...é tão presente a Pedra naquela sala que, se Benjamim viesse a emparedar a janela, parece a Ariela que a Pedra ficaria do lado de dentro...

 

   Além de ter um enredo emocionante e impressionante, Benjamim nos leva a fazer reflexões sobre a paixão extrema, a morte e os sentimentos que nos deixam vulneráveis a ponto de esquecermos de nós mesmos e entregar — até literalmente — o nosso coração a quem somos capazes de mover Pedras.

Crítica literária: "Leite derramado", de Chico Buarque

Dezembro 10, 2015

   Além de ser uma emocionante trajetória de reminiscências e devaneios de um centenário, Leite derramado é um choro que tem uma trama envolvente e atraente, que transporta o leitor para as memórias de um velho caduco que relembra suas raízes familiares, seus ancestrais importantes e que reproduz suas reminiscências, ora ou outra repetidas e distorcidas, a quem esteja ouvindo.

   Com uma beleza magnífica que percorre o enredo do início ao fim, Chico Buarque usou e abusou de seu talento literário para firmar uma relação com o passado do Brasil Império, da Nova República e dos tempos atuais, na cidade do Rio.

   Em Leite derramado, amores, rinchas, affaires, desilusões e decepções com o rumo que anda tomando a nova geração dos d’Assumpção Palumba ressaltam as lembranças de uma vida repleta de idas e voltas, altos e baixos que foi a de Eulálio.

   Numa narrativa contraditória, Eulálio desabafa não somente o que pensa, mas também o que sente, mostrando-se alguém que vai além do orgulho de pertencer a uma família importante (e caída em esquecimento), um senhor sozinho e esquecido pela família, que usa os disparates que fala como uma válvula de escape para sentir-se acompanhado — pela filha, pelos enfermeiros, pelos vizinhos de quarto, pela TV que chia e o incomoda com seu barulho estridente...

   Leite derramado vai além de um romance familiar como o estilo de Tolstói em Guerra e paz, é uma saga curta e direta de uma família em decadência e carência dos costumes e seu patriarca tentando, até o último suspiro, manter a honra e a glória do nome que sempre fora, para ele, motivo de orgulho para ostentar e vangloriar-se.

   Leite derramado retraz uma lição antiga, ensinada a nós em nossa infância: não adianta em nada chorar sobre o leite derramado.

   Este é, na minha opinião, o melhor romance de Chico e um dos melhores da literatura ocidental moderna.

Crítica de cinema: "Hoje", de Tata Amaral

Dezembro 09, 2015

   Numa trama envolvente e repleta de mistérios, Hoje se passa num “velho apartamento novo” comprado por Vera com o dinheiro que recebeu de uma indenização do governo.

   No decorrer do drama, revelações impressionantes, flashes de memória de Vera e Luiz, seu marido, lembranças da época da ditadura militar brasileira — da tortura, da militância, do sofrimento...

   Um diálogo abstrato aterra Vera e Luiz durante a mudança, criando uma atmosfera dramática e angustiosa; sem dúvida um aperto no peito de quem assiste.

   Hoje é um filme para relembrar, de forma romanceada, os anos obscuros da história do Brasil e os sentimentos de solidão e de conformação com a morte e com o desespero — que são o destino de toda e qualquer pessoa.

   Tata Amaral esbanjou em emoções e em verdades uma angústia que todo brasileiro que viveu entre as décadas de [19]60 e [19]80 ainda sente e passa para seus filhos e netos um sentimento de incapacidade, de censura, uma dor no peito que não tem limites nem fim, uma tristeza que perseguirá até o último suspiro os que lutaram pela liberdade. Hoje frisa que os que não morreram torturados durante o regime militar estão condenados a uma eterna perseguição de um passado inescrupuloso e colérico.

   O que Hoje deixa de mais profundo é o peito que ainda chora as perdas injustas e doídas a que fomos condenados a ruminar pelo resto da história deste país.

   Hoje é de uma sensibilidade madura e convincente. Sem dúvida alguma, o que há de melhor no cinema brasileiro.

Crítica de cinema: "Amores imaginários", de Xavier Dolan

Dezembro 09, 2015

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   Muitos me têm dito que nas críticas que publico (sejam elas de cinema, teatrais ou literárias), elogio tudo — e de forma excessiva. Mas é como diria Mário de Andrade ao ouvir o mesmo que eu: “passei para a crítica apologética. Eu escolho para estudar apenas os que eu admiro e amo”. E os que dizem que, por elogiar demais em minhas críticas, não sou crítico de verdade, estão certíssimos. Sou um pseudo-crítico assumido — nunca neguei. Gosto de estudar apenas o que amo. Para que hei de me irritar estudando livros, filmes e peças que considero ruins? Não sou crítico profissional, sou um pseudo-crítico, então não me dou ao direito de tal maçada (graças a deus!).

   Evitando dar mais voltas sobre o assunto que quase me incomodou esses dias, vou direto ao que importa e ao que alguns se interessam de fato: minha crítica apologética. E hoje, elogio o filme Amores imaginários, do grandioso Xavier Dolan, do qual já elogiei também Eu matei minha mãe.

 

   Amores imaginários trata-se de um relacionamento lindo entre dois melhores amigos: Francis e Marie... até aparecer Nicolas, um rapaz bonito e simpático que, desde sua chegada, causou rivalidade entre os amigos. Francis e Marie disputam, então, o amor de Nicolas, que, com seu charme, demonstra estar interessando pelos dois.

   Um ponto interessantíssimo a observar-se é que em nenhum momento, mesmo com algumas brigas, Francis e Marie se afastam. Travam rivalidade, mas não se afastam, e isso, para mim, que estou acostumado a me perder na filosofia de Bauman, é de uma criatividade genial por parte do diretor e dos atores — que casaram de uma forma impressionante —. Ao mesmo tempo que Amores imaginários mostra a fragilidade dos sentimentos na era atual, retrata também que há laços mais fortes que o fogo da paixão enganosa e que, mesmo se cortados, emendam-se mais vezes.

   Dolan deve ser louvado por ter pensado nas coisas mínimas das cenas simples, mas fortes. A cena em que Marie está com o guarda-chuva aberto e deixa Francis se molhar e, depois de algum tempo, a mágoa passa, ela deixa o orgulho de lado e protege seu amigo dos chuviscos é de uma beleza rudimentar e mágica que balança qualquer coração.

   A beleza de cada cena, de cada acontecimento em Amores imaginários é o que, sem dúvida alguma, fez o filme se tornar um sucesso querido por todos. Uma delicadeza fria e, às vezes, até indiferente, deixou Amores imaginários como um marco do cinema contemporâneo.

   Os filmes de Dolan são, sem excessão, um roteiro obrigatório dos amantes do cinema e dos amores conturbados, platônicos e/ou impossíveis.

   Amores imaginários é mil vezes belo e genial.

 

   E por que motivo deveria eu deixar de elogiar o que é verdadeiramente bom, como no caso de Amores imaginários?

Crítica literária: "Caminhos cruzados", de Erico Verissimo

Dezembro 08, 2015

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   Caminhos cruzados é um livro do cotidiano, da realidade fatídica da vida, dos amores proibidos e do sarcasmo e senso-crítico de Erico Verissimo.

   No romance despojado — não pintado com pincéis delicados, como o próprio autor diz, mas com uma pistola automática — vidas se entrecruzam, criando um ciclo social do cotidiano dos moradores da Porto Alegre dos anos [19]30. Ricos e pobres; não os patrões exploradores, nem os heróis proletários, mas a realidade nua e crua — kafkiana — são a chave desta obra incomparável do indecifrável Erico.

   Com personagens caricatos e de posições irônicas e cômicas, Erico exibe o ponto de vista de cada um em relação ao(s) próximo(s).

   Caminhos cruzados inovou o cenário da escrita nacional, marcando a entrada da “técnica do contraponto” na literatura brasileira, inspirado no livro Contraponto, de Huxley.

   Embora Caminhos cruzados possa parecer, à primeira vista, um romance leve, guarda nas entrelinhas uma crítica ferrenha e madura a assuntos políticos de peso, como a desigualdade social, a hipocrisia da burguesia tola e os sentimentos que, ao ver da sociedade (não somente na década de [19]30, mas também na atual — e exatamente por isto Caminhos cruzados é inacabável), são indevidos.

   Os empresários e suas mulheres frágeis, os vagabundos e suas mulheres fortes, resistentes, a solidão de um professor, a melancolia de um rapaz até hoje menino (por ter sido criado no mundo da fantasia) — todas histórias da vida de uma sociedade como qualquer outra. E, por ser um livro que retrata o cotidiano social, não tem início nem fim. — E, convenhamos: há algo mais magnífico e impressionante do que uma história que não começa nem termina!? Real! Caminhos cruzados é real!

Crítica literária: "Ensaio sobre a lucidez", de José Saramago

Dezembro 07, 2015

   “Uivemos, disse o cão.” — Ensaio sobre a lucidez é uma fábula para cães que, ao contrário desses que vivem nas ruas (pobres e inofensivos) não ladram, mordem sem avisar.

   Numa prosa direta e simples, mas repleta de metáforas do existencialismo humano, costumeira de José Saramago, este inicia uma saga da população de uma capital imaginária que retrata sua grande insatisfação em relação ao atual governo — de direita — e aos demais partidos políticos — do centro e da esquerda —. O resultado dessa indignação é um mar de votos brancos, e, não seria equívoco recapitular — mas, metaforicamente, e não no sentido literal, como foi, claramente, a intensão do autor — o clássico Ensaio sobre a cegueira: é como um mar de leite. No leite em que antes tinham afogado os olhos, agora afogam o voto.

   Será que a democracia é capaz de sobreviver a uma “revolta anarquista”?

   Durante todo o livro percebem-se tentativas e mais tentativas do governo tentando amenizar a suposta revolta dos “brancosos”, e Saramago, com sua técnica incomparável de escrita, faz um retrato político-social da população em referência à política e da política em referência à população. O sarcasmo usado de maneira superior é de comicidade inigualável.

   E aos que pensam que o Ensaio sobre a lucidez não está ligado ao Ensaio sobre a cegueira, é bom refutar e acrescentar que o autor relembra personagens e situações ocorridas “há quatro anos”, quando todos ainda viam tudo branco. Ensaio sobre a lucidez é uma espécie de continuação individual de Ensaio sobre a cegueira. — Não somente o título é uma referência ao livro que rendeu a Saramago, justamente, o Nobel de Literatura.

   E, ademais, quando li Ensaio sobre a lucidez e encaixei-o em Ensaio sobre a cegueira, percebi algo como Gullar diz em seu Poema sujo: “há muitas noites na noite”. — Há muitas fábulas numa só fábula de Saramago.

   E Constante, o cão, é o personagem por onde o autor implanta sua lucidez extrema e seu bom-senso crítico. E, através deste livro, Manifestemos, disse Saramago.

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