Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

blogue do siman

escritor • crítico • diretor de teatro • editor

Prefácio de Flávia Frazão a "Águas vivas mortas"

Abril 24, 2018

“Mortuus ut vivas vivus moriaris oportet.”

(“Mortos vivos para viver devem morrer.”)

 

cover_front_big.jpg

 Ao receber os originais de Água vivas mortas fui tomada de alegria e encantamento. A tarefa de prefaciar ficou ao lado, primeiro à degustação. Poesia precisa ser bebida, com vinho, de preferência.

Sorvi o vinho e Águas vivas mortas com deleite. Como leitora me senti deslumbrada porque vi revelado o mistério do não-revelado. O mar do indivíduo, único e ao mesmo tempo universal.

Em todo o livro há uma mistura do eu com o mar. Tentativa de entendimento e libertação do eu. Um eu que se mescla no outro, no mar e em si mesmo como espelho narcísico.

O jovem poeta e amigo Vinícius Siman fez uma revolução em sua própria poética estético-literária, se assim podemos dizer, fazendo uma análise diacrônica de sua obra. Corpoesia, seu último livro de poesia, já apontava para sua poética sagaz e inteligente. No entanto, percebe-se em autores muito jovens um eu lírico com percepção de mundo ainda relacionado com sua pouca experiência. No caso de Siman, nada que prejudicasse sua qualidade literária, apenas um estreitamento de percepção do mundo e das relações amorosas. Ainda assim uma grande obra. Já em Águas vivas mortas seu olhar está mais apurado e refinado. O então autor-menino aqui se configura como autor-Siman, dono de um novo e amadurecido olhar sobre a realidade do mundo e sobre a realidade amorosa. Mantém com excelência a qualidade de seus versos.

               O título do livro é ao mesmo tempo provocação e mistério. Ele desperta o leitor para múltiplos e possíveis significados. Provocação que faz buscar as conexões semânticas dentro desse vai e vem de ondas que formam o mar textual de Águas vivas mortas. Mistério porque seu sentido está para além do texto, num entre-lugar sugerido, mas alcançado apenas pelo leitor atra-vés de suas próprias inferências.

               A temática é perpassada por diálogos filosóficos, mitológicos, políticos, artísticos, religiosos e outros. Um universo intertextual que passa por discos voadores, bússolas, Dorival Caymmi, Iemanjá, areia, maré, fogo, luz, rachaduras, pescadores, águas vivas e o mar.

Poesia não pode ser apenas emoção, ou estética, ainda menos, só razão. Ela é a arte de dizer além do texto. Expressar o poético indizível. Tocar o inalcançável através da arte com as palavras. A grande chave que abre o universo poético nessa obra é a sensibilidade simeana que toca o intocável, penetra o intangível, e assim cumpre a mais profunda função da arte e da poesia.

Os versos de “Fogo fato”, por exemplo, são belíssimos. Ultrapassam os sentidos comuns. Revelam intuição poética. Um poema se justifica quando ele alcança o não-lugar. O leitor pode entender ou apenas sentir, e ainda assim ter uma compreensão profunda através dos sentidos.

 

{um verme no meio do mar

é mar ou ainda é verme?}

 

amar é a maré de azar do ser?

 

fogo fato: fotorretrato

o mar é fraco

forte é o verme fátuo (p. 33)

 

Quando o leitor alcança esse não-lugar pode chamá-lo de arte, deus, buda, mar ou apenas mistério.

Em “Pedido de socorro” pode-se apreender um diálogo com nosso tempo de agruras políticas e sociais. Já “Discos voadores”, um deboche da sociedade contemporânea, proselitista, ortodoxa que se contrapõe à sensualidade poética de “Amor na praia”. Sêmen do mar, corpos e sexo se conectam numa ressaca:

 

{no exato momento que uma onda se

[quebra na rebentação

& vem lamber seus pés

seu orgasmo mistura-se ao orgasmo do

[mar} (p. 31)

 

Mortos vivos para viver devem morrer. A frase em latim já abarcava a semântica da morte que cede lugar à vida.  Águas vivas mortas me remete a esse ciclo vida-morte, morte-vida. Um no outro, um dando lugar ao outro, numa (co)existência mútua e cíclica. A simbologia se aplica tanto à obra que aponta para o novo, pra vida, a partir da morte (ressignificação) da realidade contemporânea, quanto para a ressignificação e reconstrução do próprio autor, numa nova fase de sua literatura.

E como se estivéssemos para sempre debruçados sobre Águas vivas mortas depois dessa leitura, relembro Drummond em seu verso: “O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.”

 

FLÁVIA FRAZÃO, professora e escritora

Ipatinga, fevereiro de 2018

Crítica literária: "Prometeu da mitologia cristã", de Sued

Janeiro 08, 2016

prometeu.jpg

   Prometeu da mitologia cristã vai muito além de uma simples crítica ao cristianismo: é um inimigo da ignorância e da omissão do passado cristão, e, diferente de muitos autores dessa linhagem crítica, Sued não atua somente no passado cristão, mas, principalmente, nas consequências contemporâneas causadas pelas igrejas e seus fiéis.

   “Estamos nos tornando tolerantes à intolerância?”, é a pergunta que nos faz Sued no prefácio de Prometeu da mitologia cristã, apontando, desde já, para um horizonte libertador e visionário. E, muito mais que perguntas, muitas afirmações são cravadas em chão firme, tendo sua base bem estabelecida e sólida por argumentos capazes de silenciar qualquer boca que abra-se para proclamar bobagens.

   Prometeu da mitologia cristã vai muito além de um estudo tendencioso para pessoas específicas, muito pelo contrário, este livro é um estudo obrigatório para todos que desejam saber o passado e o presente obscuro do cristianismo. Um autêntico estudo bíblico, assim definiria Prometeu da mitologia cristã. A revolucionária autora marca sua personalidade inteligentíssima em cento e nove páginas, apresentando à sociedade um estudo autêntico e ímpar da história do cristianismo. “O Diabo”, afirma Sued, no capítulo IX, “num ponto de vista contemporâneo, é o herói da Bíblia, ele liberta o homem da alienação do Éden”.

   Sued é uma autora objetiva quando quer dizer algo, e essa identidade direta de Sued faz com que ela fique considerada, muitas vezes, escandalizada. É escandalizado quem discorda da grande massa, quem não se deixa manipular pelo Sistema, e há uma nova geração de autores independentes não aceitos pelo mercado editorial que quebram todos os tabus e publicam-se de forma independente. Mesmo assim não podem ser considerados piores que os autores publicados por grandes editoras, pois, todos sabem, editoras compram resultado, aceitação, não qualidade. E mesmo assim Sued continua, independente e maravilhosa, pelos caminhos da literatura crítica.

   Prometeu da mitologia cristã e Sued são o espelho indesejado de uma sociedade cega. — E Sued e o Prometeu resistem!

Crítica literária: "Benjamim", de Chico Buarque

Dezembro 10, 2015

   No tilintar das balas que saem pelas culatras das armas que o apontam, Benjamim Zambraia é capaz de relembrar os seus últimos dias, as alegrias, as tristezas, as pessoas, a conexão do passado com o presente através de uma moça — Ariela Masé — que tem a fisionomia idêntica à de uma antiga namorada — Castana Beatriz —.

   Benjamim é um romance que aborda uma paixão que um velho modelo fotográfico sentiu por Castana, mulher pela qual se apaixonou desde a primeira vez que a viu. Depois de muitos anos, Benjamim encontra uma mulher idêntica a Castana; só pode ser filha dela — pensa —, e a partir daí, vezes segue Ariela, vezes encontra-se repentinamente com ela, e começa a apaixonar-se pela moça que conheceu por acaso e esquecer-se de Castana, o amor de sua vida.

   Como costumeiro nas obras de Chico Buarque, é surpreendente a forma com que o autor vive cada personagem e adiciona a cada um uma personalidade caricata, dificilmente encontrada em outros autores — que eu, até hoje, percebi somente em Erico Verissimo e na peça Viajando nas palavras do Brasil, de Dinei Gonçalves.

   Aproximando-se do final, emoções, suspense e surpresas tornam a leitura — que já era, até então, agradabilíssima — ainda mais gostosa e envolvente.

   A paixão que Benjamim começa a sentir por Ariela (não) é maior do que a que este sente pela enorme Pedra que há em frente às janelas de seu apartamento, sua companheira de todas as horas. No momento em que Ariela vê a Pedra e corre, Benjamim estremece, cogita e toma uma atitude que o fará rever toda sua história.

 

...é tão presente a Pedra naquela sala que, se Benjamim viesse a emparedar a janela, parece a Ariela que a Pedra ficaria do lado de dentro...

 

   Além de ter um enredo emocionante e impressionante, Benjamim nos leva a fazer reflexões sobre a paixão extrema, a morte e os sentimentos que nos deixam vulneráveis a ponto de esquecermos de nós mesmos e entregar — até literalmente — o nosso coração a quem somos capazes de mover Pedras.

Crítica literária: "Leite derramado", de Chico Buarque

Dezembro 10, 2015

   Além de ser uma emocionante trajetória de reminiscências e devaneios de um centenário, Leite derramado é um choro que tem uma trama envolvente e atraente, que transporta o leitor para as memórias de um velho caduco que relembra suas raízes familiares, seus ancestrais importantes e que reproduz suas reminiscências, ora ou outra repetidas e distorcidas, a quem esteja ouvindo.

   Com uma beleza magnífica que percorre o enredo do início ao fim, Chico Buarque usou e abusou de seu talento literário para firmar uma relação com o passado do Brasil Império, da Nova República e dos tempos atuais, na cidade do Rio.

   Em Leite derramado, amores, rinchas, affaires, desilusões e decepções com o rumo que anda tomando a nova geração dos d’Assumpção Palumba ressaltam as lembranças de uma vida repleta de idas e voltas, altos e baixos que foi a de Eulálio.

   Numa narrativa contraditória, Eulálio desabafa não somente o que pensa, mas também o que sente, mostrando-se alguém que vai além do orgulho de pertencer a uma família importante (e caída em esquecimento), um senhor sozinho e esquecido pela família, que usa os disparates que fala como uma válvula de escape para sentir-se acompanhado — pela filha, pelos enfermeiros, pelos vizinhos de quarto, pela TV que chia e o incomoda com seu barulho estridente...

   Leite derramado vai além de um romance familiar como o estilo de Tolstói em Guerra e paz, é uma saga curta e direta de uma família em decadência e carência dos costumes e seu patriarca tentando, até o último suspiro, manter a honra e a glória do nome que sempre fora, para ele, motivo de orgulho para ostentar e vangloriar-se.

   Leite derramado retraz uma lição antiga, ensinada a nós em nossa infância: não adianta em nada chorar sobre o leite derramado.

   Este é, na minha opinião, o melhor romance de Chico e um dos melhores da literatura ocidental moderna.

Crítica literária: "Caminhos cruzados", de Erico Verissimo

Dezembro 08, 2015

caminhos.jpg

   Caminhos cruzados é um livro do cotidiano, da realidade fatídica da vida, dos amores proibidos e do sarcasmo e senso-crítico de Erico Verissimo.

   No romance despojado — não pintado com pincéis delicados, como o próprio autor diz, mas com uma pistola automática — vidas se entrecruzam, criando um ciclo social do cotidiano dos moradores da Porto Alegre dos anos [19]30. Ricos e pobres; não os patrões exploradores, nem os heróis proletários, mas a realidade nua e crua — kafkiana — são a chave desta obra incomparável do indecifrável Erico.

   Com personagens caricatos e de posições irônicas e cômicas, Erico exibe o ponto de vista de cada um em relação ao(s) próximo(s).

   Caminhos cruzados inovou o cenário da escrita nacional, marcando a entrada da “técnica do contraponto” na literatura brasileira, inspirado no livro Contraponto, de Huxley.

   Embora Caminhos cruzados possa parecer, à primeira vista, um romance leve, guarda nas entrelinhas uma crítica ferrenha e madura a assuntos políticos de peso, como a desigualdade social, a hipocrisia da burguesia tola e os sentimentos que, ao ver da sociedade (não somente na década de [19]30, mas também na atual — e exatamente por isto Caminhos cruzados é inacabável), são indevidos.

   Os empresários e suas mulheres frágeis, os vagabundos e suas mulheres fortes, resistentes, a solidão de um professor, a melancolia de um rapaz até hoje menino (por ter sido criado no mundo da fantasia) — todas histórias da vida de uma sociedade como qualquer outra. E, por ser um livro que retrata o cotidiano social, não tem início nem fim. — E, convenhamos: há algo mais magnífico e impressionante do que uma história que não começa nem termina!? Real! Caminhos cruzados é real!

Crítica literária: "Ensaio sobre a lucidez", de José Saramago

Dezembro 07, 2015

   “Uivemos, disse o cão.” — Ensaio sobre a lucidez é uma fábula para cães que, ao contrário desses que vivem nas ruas (pobres e inofensivos) não ladram, mordem sem avisar.

   Numa prosa direta e simples, mas repleta de metáforas do existencialismo humano, costumeira de José Saramago, este inicia uma saga da população de uma capital imaginária que retrata sua grande insatisfação em relação ao atual governo — de direita — e aos demais partidos políticos — do centro e da esquerda —. O resultado dessa indignação é um mar de votos brancos, e, não seria equívoco recapitular — mas, metaforicamente, e não no sentido literal, como foi, claramente, a intensão do autor — o clássico Ensaio sobre a cegueira: é como um mar de leite. No leite em que antes tinham afogado os olhos, agora afogam o voto.

   Será que a democracia é capaz de sobreviver a uma “revolta anarquista”?

   Durante todo o livro percebem-se tentativas e mais tentativas do governo tentando amenizar a suposta revolta dos “brancosos”, e Saramago, com sua técnica incomparável de escrita, faz um retrato político-social da população em referência à política e da política em referência à população. O sarcasmo usado de maneira superior é de comicidade inigualável.

   E aos que pensam que o Ensaio sobre a lucidez não está ligado ao Ensaio sobre a cegueira, é bom refutar e acrescentar que o autor relembra personagens e situações ocorridas “há quatro anos”, quando todos ainda viam tudo branco. Ensaio sobre a lucidez é uma espécie de continuação individual de Ensaio sobre a cegueira. — Não somente o título é uma referência ao livro que rendeu a Saramago, justamente, o Nobel de Literatura.

   E, ademais, quando li Ensaio sobre a lucidez e encaixei-o em Ensaio sobre a cegueira, percebi algo como Gullar diz em seu Poema sujo: “há muitas noites na noite”. — Há muitas fábulas numa só fábula de Saramago.

   E Constante, o cão, é o personagem por onde o autor implanta sua lucidez extrema e seu bom-senso crítico. E, através deste livro, Manifestemos, disse Saramago.

Crítica literária: "Assassinatos na Academia Brasileira de Letras", de Jô Soares

Setembro 14, 2015

abl.jpg

   Com a genialidade que deve-se esperar obrigatoriamente de ninguém mais, ninguém menos que Jô Soares, Assassinatos na Academia Brasileira de Letras é a prova de que um autor pode ser cômico, misterioso e surpreendente em um só livro, sem contar a ironia, que é mais que acréscimo, é lei.

   Assassinatos na Academia Brasileira de Letras traz — à base de um enredo estudado cujo domínio do tempo em que se passa é visível — a época em que a Academia ia de bem a melhor, criando novos personagens para esse tempo, mas tudo dentro de um realismo impressionante; daí percebe-se que, na literatura de Jô, entre a ficção e a realidade há uma linha tênue, traçada com delicadeza e maestria pelo autor.

   Um suspense concomitante encarrega-se de prender-nos até o fim do livro e permanece para o fim da vida. No final, descobrimos quem é o assassino, mas uma pulga permanece atrás da orelha eternamente. A inquietude que a obra de Jô Soares e, principalmente, Assassinatos na Academia Brasileira de Letras nos faz sentir é surpreendente, inclusive no ponto de vista literário, pois proezas autênticas como esta são visíveis e perceptíveis em poucas obras de seletos autores.

   Jô Soares tem de bom humorista e apresentador o que tem de genialidade na ficção e no suspense retratados neste romance.

   Assassinatos na Academia Brasileira de Letras é uma trama que atrai e prende o leitor e o deixa sem possibilidade de fuga. Estupendo!

Crítica literária: O regionalismo ipatinguense na literatura de Rubem Leite

Agosto 31, 2015

rubem2.jpg 

 

   Já disse ao próprio [Rubem] várias vezes que se sua literatura — que é ímpar e incomparável — se assemelhasse com a de algum grande escritor, esta seria extremamente parecida à de Balzac. — E não comparo-o somente à genialidade do grande, mas, mais apuradamente, nos traços sensíveis e profundos do regionalismo concreto e direto.

   Balzac deixa bem claro em toda a sua obra o lugar onde viveu e o amor-ódio que sente por este. Paris é pintada de trás para frente e de frente para trás na trama envolvente e reveladora balzaquiana. No caso de Rubem Leite, Ipatinga é o lugar onde tudo acontece; o poço das artes mágicas-concretas, das alucinações, dos sonhos, dos pesadelos; tudo gira em torno de Ipatinga e seus arredores. E podem estar se questionando: o que um escritor regionalista acrescenta em meu conhecimento caso o for ler? Nada complexo demais: um escritor regionalista acrescenta mais conhecimento de lugares e sentimentos que estes transmitem do que cidades, províncias, países inventados. Os lugares dizem coisas. A cultura e os sentimentos de um texto regionalista são mais apurados pois o texto teve uma conexão direta com o concreto e com a imaginação a partir deste.

 

Eram quatro horas de uma madrugada enluarada no Centro de “Ipatinga, cidade jardim” de concreto, ferro e, agora, menos árvores (LEITE, 2012).

 

   Comparado esse trecho do cronto (como o próprio Rubem prefere dizer) “Alimento da alma” às obras de Balzac é de uma semelhança avassaladora. Paulo Rónai costumava dizer que Paris é a protagonista de toda a Comédia, de Balzac:

 

A Paris de Balzac, para dizer a verdade, pouco tem de idílico. O seu brilho lembra a chama que atrai os insetos noturnos para queimá-los. Se os insetos pudessem refletir! Se olhassem um instante sequer o chão, cheio de asas queimadas, de corpos carbonizados de seus semelhantes! Eles, porém, só sabem olhar para a luz, só têm uma vontade, chegarem-se a ela o mais possível, aquecerem-se a ela (RÓNAI, 2012).

 

   E é exatamente nisto que disse Rónai que a literatura de Balzac e Rubem se casam. Ipatinga, como vimos no trecho de “Alimento da alma”, citado anteriormente, é o “brilho que faz lembrar da chama que atrai os insetos noturnos para queimá-los”. Ipatinga, cidade jardim é uma coletânea de José Augusto de Moraes que conta a história de Ipatinga através dos acontecimentos importantes da cidade, e Rubem ironiza finamente a colocação de uma cidade à roda de uma siderúrgica como uma cidade “sustentável”, ao que se propõe, à primeira vista, o título. Ipatinga tem muitas árvores, sim, mas agora menos.

   A literatura de Rubem, a princípio, é realista. Mas a pontos apurados de sua fantasia em personagens como Guino, e os mais recentes Don Perro de La Mancha e Edgar Allan Cat, o abstrato, pelo surreal, engana-se de tal modo que acredita-se ser real o que se está lendo. E de fato é, no mundo impressionante da obra de Rubem Leite. Mas o mais importante de tudo isto é que, mesmo sendo surrealista, metafórico muitas vezes, Rubem passa uma imagem literal e sóbria do regionalismo ipatinguense.

   Em seu blog, aRTISTA aRTEIRO, Rubem diz que nele [no blog] encontram-se “percepções e concepções de um arteiro artista e de um artista cidadão”, e esta é a chave de sua literatura: ser um artista cidadão e criticar sempre assuntos que estão no repertório atual do povo ipatinguense com sensibilidade literária e crítica indescritíveis, e com um apuro emocional incrível.

   Rubem Leite, comparando-o às raízes da literatura regionalista, é o Balzac ipatinguense. E tão grandioso quanto; ou mais.

 

Referências bibliográficas

   LEITE, Rubem. "Alimento da alma", 2012.

   RÓNAI, Paulo. Balzac e a Comédia Humana. 1.ª ed. São Paulo: Biblioteca Azul, 2012.

Crítica literária: "Azat Hámma", de Sued

Agosto 30, 2015

azat hámma.jpg

   Em contos envolventes e impressionantes, Sued reinstaura o poder de amor à arte e, através desse amor, a autossuficiência da arte no artista e nos apreciadores — esta, porém, que está a acabar-se pelo mercado devorador da literatura (principalmente nacional). Azat Hámma ultrapassa uma coletânea de contos; é um álbum fotográfico de vida, morte, paixão e arte. A arte verdadeira enlouquece os lúcidos e a morte os dá chão à utopia faminta de impossibilidades.

   Azat Hámma é a confirmação do que diziam e sentiam os poetas antigos, esquecidos pela vida e eternizados pela morte — e isto, em alguns aspectos, é bom. O autor que sofre no esquecimento produz sofrimento esquecido, e aí está o sublime da arte: o vão, o profano, a intimidade realista entre o artista e sua arte que o torna desumano e intocável, ou, mais comumente, o mais humano de todos os homens.

   “Surdo para a vida” e “Azat Hámma” são metafísicos em sua essência surrealista e fantástica — mesmo que ainda sombria — e retratam a humanidade excessiva dos artistas, que são os olhos dos homens; e em “Surdo para a vida”, além disto, o retrato real da humanidade tola e mesquinha, que está fadada à surdez, à homogeneidade e à manipulação; “Opiniões de um velho rabugento” retrata o esquecimento a que todos estamos condenados na velhice — a fase-morta; “A fenda”, “A flecha de Erato”, “O masoquista” e “O apaixonado” são a revelação autêntica do amor verdadeiro e a desgraça em senti-lo; o amor platônico, o amor eros, o amor humano.

   Com maestria ímpar, Sued revela, mais uma vez, sua genialidade na arte sublime, acima de tudo e todos. Acima do mercado e da audiência, da crítica e da atenção, do proveitoso; todos os “valores” são deixados de lado nas tramas surpreendentes de Sued em Azat Hámma para entrar em contato constante com a arte pura, a arte por si.

   Definiria, resumidamente, Azat Hámma em contos de paixão pela personificação da arte, prosopopeia da vida e do sublime.

   Genial!

Crítica literária: "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago

Agosto 26, 2015

ensaio sobre a cegueira.jpg

   Estou cego, estou cego! — Grita, de dentro do carro, um motorista qualquer em pleno sinal verde. Todos buzinam, mas de que adianta, se estamos todos cegos!? Se estamos todos encurralados entre um sinal de siga e motoristas raivosos querendo seguir!? Ensaio sobre a cegueira é uma grande metáfora, uma grande maquiagem de percepção dos tempos atuais. Traços semelhantes à Alegoria da Caverna, de Platão, vêm confirmar-se nestes tempos modernos e provar a realidade da profecia.

   Se Ensaio sobre a cegueira tivesse outro nome, este seria Livro do desassossego, sem dúvida alguma. Saramago propõe-nos “fechar os olhos e ver”, ver como nossa ignorância está nos deixando cada vez mais cegos e que os únicos que veem não são os menos ignorantes, mas os que reconhecem sua ignorância e que depende do próximo.

   Em uma trama envolvente e inquietante, Saramago livra-nos das correntes que nos prendem às paredes da caverna e nos faz descobrir o mundo real — que não é o que pensávamos, ao ver as imagens projetadas na parede pelo fogo. Ninguém fica o mesmo depois de sentir este livro.

   Típico das obras geniais e magníficas de Saramago, Ensaio sobre a cegueira é a confirmação de extrema humanidade do autor e de sua formidável literatura visionária. Deliciar-se a cada página e sentir-se atraído aos próximos capítulos torna-se comum durante a leitura deste livro com características fortes e impactantes. E não exagero.

   Mais do que um espelho do mundo, Saramago sugere, através de Ensaio sobre a cegueira, o mundo como ele é, sem eufemismos. O caos em que vivem os cegos é o mesmo caos que vivemos nós pela perplexidade do absurdo e do imoral. “Ainda não perdemos o costume de ver”, diz-se a todo momento. Mas, na vida, ainda não perdemos o costume de não ver. Talvez seja este o problema e até a solução para os problemas que enfrentamos ultimamente: olhar, ver e reparar.

   Impactante, inovador, visionário e — acima de tudo — inquietante é, resumidamente, Ensaio sobre a cegueira e a capacidade de nos fazer ver que Saramago exerceu com maestria.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D